Poemas

do crepúsculo ao amanhecer

florianópolis é gozo
ponto – janeiro°
librianos alienígenas
perfuram olhando
forte | olhando
engulo o oceano
cuspo-peido e arroto
aos deuses
humanos
galácticos
amarelos
a luz está aqui?
ou acolá?
the cure
forte
embarcações distantes
perfuram los ojos argentinos
lacrimejantes
de caipirinha
ponto – fevereiro?
libra
que diz – relaxe
e diz – é assim
e relaxe – e é assim
aqui, bem aqui?
amigo ancestral
traço a linha na areia
assim?
uma abelha dentro do copo
no lixo
a minha vida?
deixa estar
como os habitantes
do deserto
de kalahari
daí corro e é urina
cachorros que entendem
alegria
e volto
e como estou?
como os montanheses
da nova guiné
urina formando desenhos
em minha calça
magenta
ouso e brilho
caçadores
colhedores
forte | bem forte
entende?
pulo
daí cavouco com os pés
areia úmida
não importa
ruiu
rui nuvens
camuflado em LSD
é jim morrison
é forte
calendário
libriano
esse moço loiro drogado
tem importância?
responsabilize-se
eu procuro
caminhante
por ali?
por lá?
e dou boa cheirada
traçando na areia o risco
amanhecendo o horizonte
florianópolis | tesão
los ojos uruguaios
paraguaios
colombianos
forte
medito
então carburam cigarros
sorrisos eu entendo
e gosto do doce
modo
que me aproximo
é forte
libra contrabalanceia
alienígenas olhudos
é janeiro
de uma vez por todas
eu volto
o êxtase degenera

Anúncios
Poemas

DESCONFIADO

essa história soa suspeita,
e aumenta com o tempo.
os bichos correm e voam de um lado para o outro,
enquanto os homens dirigem seus carros
cheios de cera no ouvido e cocaina no porta-luvas.
suspeito os olhares castanhos,
olhares verde-azuis e gente de óculos;
meus óculos são escuros e sempre protegem.
desconfio de como as garotas acariciam esses cães selvagens e gatos de rua,
e como elas também acariciam o ego de alguns caras para fritá-lo numa frigideira em seguida, e todos aprendem e fazem o tempo todo um com o outro;
o sujeito flerta descaradamente e acaba atraindo ódio,
e vice-versa.
logo não se olham mais, vai tudo pelos ares: pelados, em seguida rebelados.
e vejo como os garotos bebem sua cerveja quente e anulam o sexo,
perdem as estribeiras e se drogam para esquecer a falta de dinheiro e o dispêndio que o não transar acarreta e o transar também, entre pílulas do outro dia, cerveja e comida e aborto.
ficar louco!
ficar louca!
desconfio, não me atraio pela loucura dos homens iluminados que vendem livros de cinco mil anos e incensos como purificação total.
cada olhar é uma tristeza diferente, uma desconfiança diferente,
como carros coloridos e cigarros almiscarados.
falam inglês e espanhol e italiano e francês e comentam sobre o cotidiano do país, dos roubos e arroubos.
Haitianos, muçulmanos,
Árabes, americanos, chineses,
ninguém escapa,
o brasileiro está no topo porque o volume é maior.
e desconfio de toda geléia e alegria de balconistas e garçonetes.
de todo vendedor de eletrodoméstico.
essa história toda me soa suspeita, não venha me falar de aluguel,
queda de energia ou falta de água, pois é cada vez mais forte:
eu desconfio do prazer e
sei do arrombo em nossos corações.

Poemas

LIMONADA

aos muitos vizinhos o
automóvel chama mais atenção que o pássaro,
mas consigo discernir
o canto do ronco.
“saudai os limoeiros,
os asa-deltas e
as romãs”, arranho desafinado.
o açougueiro esgueira entre o muro,
eu apanho dois limões;
O caminhão estremece a vila,
Ford, e enquanto sobe voam pássaros das árvores de todos os cantos.
– Que rua movimentada, não é mesmo? – cumprimento o açougueiro.
– Você gosta de limão? – devolve-me ele.
– Esses sicilianos rendem sucos maravilhosos, e recomendo bater com casca. – ensino.
– O preço está em alta, não é mesmo? – irônico.
– Nos supermercados, é claro – incisivo.
O barulho do caminhão é mais distante.
Subindo, um carro com fumaça do escapamento.
“Um bom suco de limão é o que eu preciso”, penso, e me despeço do homem com um aceno de cabeça.
Um pássaro plainando.
Cachorros em desespero.
Sete horas da noite e é dia,
Devo cozinhar feijão ainda hoje.

Poemas

BARRICADA DE PARALELEPÍPEDOS

aceita um bico…?
de coturno (na face),
um beijo quilofágico
(do meu pé)?

quem sabe é mesmo doído
essa vida a dois,
físico e não físico.

consideremos,
os olhos estão aí.
e os vermes o arrancarão.

Tibet está aí também,
os livros do passado,
os sete degraus da ascensão.

mas e as duvidosas marchas presidenciais?
quem calça o coturno,
e munido de regalias está?
e o que procuram?
aceita um cale-se
de outrora?
perguntam-nos.

é um futuro tão brilhante
de estrelas no céu,
um inverno muito escuro,
rigoroso.

e nossa máscara
Shakespeariana?
o palco é o mesmo,
e diz-se democrático;

mas as armas são reais.

e estamos precavidos?
há paralelepípedos
suficiente para as barricadas?

gostaríamos de convocar
o dia do não estado,
e com certeza será
um dia de guerra e destruição.

mas apanhamos tanto,
coturnos doem dramaticamente.
nós teremos força?
é de se perguntar.

muitos enriqueceram,
muitos estarão para defender
o estandarte oposto.

seremos nós,
Thoreaus de amanhã
os salvadores
Daqui?

ou seremos nós
os donos do coturno?

Poemas

amores e amantes são a mesma coisa, um bom jantar a três
Abóbadas são amores distantes
frutas em que pássaros inescrupulosos bicam
Amores estão prestes a explodir
Você está na linha de frente estando apaixonado assim
olhos lançadores de granadas
paixões são fogos de artifício que explodem na mão
carabinas e bundas distantes
dos lábios escorre o valor do amor
Você está babando, não está? apaixonado assim
ninguém sabe o que fazer
e fazem filhos
amar e não amar é a mesma coisa,
cada qual com a sua sorte
uma fruta que apodrece ao relento
um pássaro que voa sozinho
amores voam alto
mais alto,
passarozinho.

Poemas

PORQUE NEM TODOS SÃO ARENQUES VERMELHOS 

atura,
como bandini aturou
magras laranjas;

como aturo eu,

feito um arenque
vermelho,
gente por tão pouco
sofrer pelo
que não possui –

a ponto
de prantos
vertidos.

atura,
como aturo,
como famélicos
da comunidade vizinha
e ermitões
das longínquas
e gélidas montanhas
do sul.

é a dor de uma violenta paixão,
essa que te tortura o rosto?

aturo,

como uma embarcação
para afundar,
como camilla lopez,
a garçonete mexicana
de cálidos olhos
em sua árdua função,
como bandini derrotado,
forçando o animal descarnado
para dentro do veículo.

quão desaforados!
aí choras?

aí sofre porque é destino?

por que nunca sofreu,
imagina-se.
e nem sei quem mede isso.
a ignorância de um,
a certeza do outro.

ature,
como aturou
arturo bandini,
como tenho aturado:

por vezes com olhos cerrados,
respirando o pó
da minha guarnição interior;

por vezes escancarando
a janela
para que brilhe o sol
a quem a luz interna
está por um fio.

Poemas

ABERTURA

pequenas conclusões
e nenhuma resposta
definitiva sobre nada;
o cinza do céu d’uma Matinhos sem sol,
o voo das gaivotas universais,
pescadores de batatas grossas e morenas canelas inquebrantáveis,
nenhuma resposta;
barcos pequenos,
distantes e perdidos no horizonte;
pequenas conclusões sobre Lúcia,
a pouca idade,
a regência de vênus,
sua pele rosada,
as bochechas arredondadas e uma face de sorriso radiante, incontestavelmente irradiante,
estando os porquês todos
num único movimento de mandíbula;
deito em suas coxas,
ela fica sempre mais rosada e contemplo
o sangue que escorre por seu rosto,
internamente,
puxo a atenção de todos
com uma observação infantil
e Lúcia, corada,
olha-me com profundidade;
me desculpo verdadeiramente,
tudo é verdadeiro ou pelo menos se tornou real para mim;
profusão de vozes,
uma cartela de ácido no bolso d’minha bermuda praiana,
e nem todos estão felizes;
pequenas conclusões
e absorções,
o oceano cantando calmamente
ao som das guitarras espanholas,
movimentos embriagados,
Dionísio empunhando uma garrafa de vinho parecendo satisfeito,
estrelas brilhando com mais intensidade que outras;
haverá grandes motivos por d’trás da imensidão?
é preocupante o pensar do outro,
devemos nos desesperar e forjar uma atuação medíocre,
dessas que amenizam,
tranquilizantes e mentirosas?
ou guerreamos,
mostramos que é preciso vencer os próprios dilemas,
cruéis & doloridos?
pequenas conclusões e acertos é o grande horizonte,
um momento
e então é só agradecer e
mudar em direção ao vento,
e já que estamos nus
nos atirar ao oceano.