Ensaios

T A B L A D O

CHUVA e FRIO c o m p l e t a r a m o cenário desta manhã, e mais uma vez tive a certeza, pensando nos desejos e IMBECILIDADES da mente, de que na tragédia das paixões I N D I S C R I M I N A D A S tudo contribui para arruinarmos c o n s i d e r a v e l m e n t e nossas VIDAS ― abandonemos, pois, o TABLADO de cortinas rasgadas do C O T I D I A N O: as paixões.

Poemas

Pombos

engraçado o movimento d’pescoço
dos famélicos pombos matinais,
tão pequenos e prepotentes,
cinzas e brancos e pretos,
bicando migalhas no terminal
do Bairro Alto, um pedaço de sol
disputado pelos cães vagabundos,
cinco deles dormindo em pneus
comunitários com patas caninas
pintadas nas laterais
e cobertores auxiliares;
latem para mim
porque tenho uma aura carregada
de dor, e só faço criticar pombos
e cochilar em pé enquanto o ônibus
não aparece.
rechaço mentalmente o café
já adoçado da lanchonete do terminal;
já não me preocupo com
leituras matinais, tirinhas,
pão de queijo ou todos aqueles chás da tarde.
uma única vez matei um pombo;
ele estava com o peito estufado,
pomposo e eu era só uma criança
que tinha um estilingue bem feito,
uma forquilha encontrada
numa aventura através de pés
de goiaba e jabuticabas;
mas não só o estilingue,
eu tinha algo ainda mais mortal,
amigos assassinos de pássaros
e bastante persuasivos,
de modo que,
sem pestanejar e invocando o espirito da morte,
mirei e estiquei a borracha soro
até encontrar minhas bochechas rosadas
de criança,
um olho fechado, a testa franzida
e uma concentração meditativa incrível;
a pedra, arredondada,
abrira um buraco considerável no peito do pombo,
sua queda foi instantânea
e tive a pior sensação que um
garoto idiota poderia ter;
o sangue do outro se apresentava pela primeira vez
a meus olhos e observei
o pombo caindo feito suas fezes traiçoeiras
para nunca mais voar.
as nuvens sumiram de vez
e o sol me cegou,
nem sei se estive realmente acordado:
meu ônibus acabara de chegar.

Crônicas

O GOZO DO POETA

a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo; daí que os poetas bebem até morrer e choram a dor do fracasso e a desilusão do abandono. por isso quando peguntam se vai tudo bem, vai tudo bem, responde o poeta. o sujeito dos versos, emergido na tristeza estarrecedora, fornece sentimentos de continuidade ao borrar com lágrimas as palavras sofridas do papel, salgando a alma rabiscada que conta sua vida e a vida fora de si ― essa propriedade que a massa imagina possuir, o corpo físico. isso justifica algo, pensa; fica louco e aí a combustão reaparece, sua cabeça abaixada indicando que uma força tresloucada guiará seus pensamentos ao cerne da questão universal, o cataclisma enternecedor, até que tudo vire sol em prosa; e que voltemos à nossa escaldante condição de primata fornicador; falos noturnos. o poeta sabe dos desejos, mas tenta evitá-los, mesmo que muitos deles ― em grande número os malditos ― contribuam para aumentá-los, remunerando-os, exaltado-os em grandes goles de álcool em noites quentes de janeiro e frias madrugadas de agosto. o que todos almejam, diz o poeta, é alguém a quem possa dizer que a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo, depois de gozar.