Poemas

ABERTURA

pequenas conclusões
e nenhuma resposta
definitiva sobre nada;
o cinza do céu d’uma Matinhos sem sol,
o voo das gaivotas universais,
pescadores de batatas grossas e morenas canelas inquebrantáveis,
nenhuma resposta;
barcos pequenos,
distantes e perdidos no horizonte;
pequenas conclusões sobre Lúcia,
a pouca idade,
a regência de vênus,
sua pele rosada,
as bochechas arredondadas e uma face de sorriso radiante, incontestavelmente irradiante,
estando os porquês todos
num único movimento de mandíbula;
deito em suas coxas,
ela fica sempre mais rosada e contemplo
o sangue que escorre por seu rosto,
internamente,
puxo a atenção de todos
com uma observação infantil
e Lúcia, corada,
olha-me com profundidade;
me desculpo verdadeiramente,
tudo é verdadeiro ou pelo menos se tornou real para mim;
profusão de vozes,
uma cartela de ácido no bolso d’minha bermuda praiana,
e nem todos estão felizes;
pequenas conclusões
e absorções,
o oceano cantando calmamente
ao som das guitarras espanholas,
movimentos embriagados,
Dionísio empunhando uma garrafa de vinho parecendo satisfeito,
estrelas brilhando com mais intensidade que outras;
haverá grandes motivos por d’trás da imensidão?
é preocupante o pensar do outro,
devemos nos desesperar e forjar uma atuação medíocre,
dessas que amenizam,
tranquilizantes e mentirosas?
ou guerreamos,
mostramos que é preciso vencer os próprios dilemas,
cruéis & doloridos?
pequenas conclusões e acertos é o grande horizonte,
um momento
e então é só agradecer e
mudar em direção ao vento,
e já que estamos nus
nos atirar ao oceano.

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Poemas

até que ponto é dolorido?
até que respondam suas expectativas;
até que correspondam suas investidas;
até que o abraço do pai
não seja meramente virtual?

(a saudade nasceu com o homem
e dele só se separa na morte)

até que ponto sua força
pode segurar a lágrima?
até que o suor do esforço
do outro seja o único líquido;
até que os vícios sejam reminiscências;
até que as reminiscências sejam
de vidas celestes superiores?

(é razoável sofrer quando todos
estão felizes na ignorância)

até que ponto pode o olho
se fechar para a dor alheia?
até que a maldição também
o agarre pelos cabelos;
até que o sangue das tuas veias
seja o único líquido;
até que a vaidade
nos extermine de vez?

Poemas

ESTRATO SOCIAL

ó nobre homem solitário;
ó nobre funcionário do mês;
ó nobre sapo venenoso;
ó nobre mulher d’família burguês;
ó nobre cavalo de corrida,
doce lebre acinzentada;
ó nobre cão amedrontado:
o que fazemos aqui?
ó nobre garimpeiro;
nobre hóspede parasita;
nobre carro americano;
ó nobre apreciador de bebidas;
ó nobre trabalhador pesqueiro,
ó nobre homem desmiolado:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
ó nobre avestruz;
nobre sapo cururu;
ó nobre mulher aveludada;
ó nobre cavaleiro sem rédeas;
ó nobre sapateiro capitalista;
nobre trabalhador da limpeza;
trabalhador da construção civil;
ó nobre advogado,
nobre juiz bonachão,
ó nobre soldador sujo de graxa;
ó nobre delegado inviolável;
nobre policial grande e corrupto;
ó nobre presidente rico de um país falido;
parlamentarista fedido;
ó deputado estadual banguela;
ó nobre saltimbanco,
malabarista de facão,
domador maquiado de leão;
tigre de bengala;
guia turístico;
arquiteto;
sem teto;
ó nobre professor;
homem do jaleco sujo:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
você que almeja títulos,
privilégios,
fortuna e luxúria,
que não volta para dentro,
vive do lado direito
mesmo sem estarmos em guerra;
ó nobre homem de negócios,
ó dividendo;
ó nobre vendedor de cocada,
traficante de cocaína;
ó nobre príncipe;
nobre conselheiro;
capitão de navio;
ó nobre guru,
conhecedor das
coisas excelsas;
ó nobre portador de cabeças de gado;
ó nobre trabalhador assalariado;
ó nobre homem de negócios;
ó nobre homem sem negócio;
ó nobre filho da mãe,
do pai,
do espírito santo;
ó guru,
falso organizador de toda a energia
do universo;
ó místico,
conhecedor de todos os sete planos;
ó continuação de Krishna,
extensão de Shiva,
expressão de Brahma;
ó buscador nervoso do nirvana;
ó filósofo, Confúcio, Plotino,
ó Platão,
o que vocês têm a dizer
da nossa atual condição?
ó nobre discípulo;
nobre enfermeiro;
nobre aviador;
ó nobre conhecedor
das causas profundas
do homem;
ó nobre mecânico de automóveis;
nobre borracheiro;
atendente de lanchonete;
ó você que tem problema em casa,
não tem dinheiro o mês inteiro;
você que brigou com a mulher
brigou com a mãe,
com o pai,
com as irmãs,
que está no inferno;
ó você que caminha todos
os dias em direção
a uma condição melhor
de vida;
comece olhando para o alto,
percebendo a magnificência
dos príncipes celestes;
ó nobre homem vivo neste plano,
você já se tornou humano
ao menos uma vez? 

Poemas

Pombos

engraçado o movimento d’pescoço
dos famélicos pombos matinais,
tão pequenos e prepotentes,
cinzas e brancos e pretos,
bicando migalhas no terminal
do Bairro Alto, um pedaço de sol
disputado pelos cães vagabundos,
cinco deles dormindo em pneus
comunitários com patas caninas
pintadas nas laterais
e cobertores auxiliares;
latem para mim
porque tenho uma aura carregada
de dor, e só faço criticar pombos
e cochilar em pé enquanto o ônibus
não aparece.
rechaço mentalmente o café
já adoçado da lanchonete do terminal;
já não me preocupo com
leituras matinais, tirinhas,
pão de queijo ou todos aqueles chás da tarde.
uma única vez matei um pombo;
ele estava com o peito estufado,
pomposo e eu era só uma criança
que tinha um estilingue bem feito,
uma forquilha encontrada
numa aventura através de pés
de goiaba e jabuticabas;
mas não só o estilingue,
eu tinha algo ainda mais mortal,
amigos assassinos de pássaros
e bastante persuasivos,
de modo que,
sem pestanejar e invocando o espirito da morte,
mirei e estiquei a borracha soro
até encontrar minhas bochechas rosadas
de criança,
um olho fechado, a testa franzida
e uma concentração meditativa incrível;
a pedra, arredondada,
abrira um buraco considerável no peito do pombo,
sua queda foi instantânea
e tive a pior sensação que um
garoto idiota poderia ter;
o sangue do outro se apresentava pela primeira vez
a meus olhos e observei
o pombo caindo feito suas fezes traiçoeiras
para nunca mais voar.
as nuvens sumiram de vez
e o sol me cegou,
nem sei se estive realmente acordado:
meu ônibus acabara de chegar.

Poemas

TUDO O QUE POSSUO 

Não TENHO NADA nos bolsos e
o que eu tenho na minha VIDA?
Eu tenho nada,
e é tudo o que CARREGO;
uma ou duas dúvidas
sobre o universo,
e muitas coisas a discutir
com a ciência MATERIALISTA;
nada TÃO grave
que POSSA afetar-me como
I N D I V Í D U O
e assim enjaular-me
nessa A N S I E D A D E
natural do nosso século
― coisa que não me impede
de tratar I R O N I C A M E N T E
a busca por água
em planetas distintos.
Mas por quais becos se
A R R I S C A M
as coisas de que possuo?
Não nos bolsos do casaco,
nem em grandes copos VAZIOS
nos armários do tempo mental;
ELAS estão enraizadas no mais íntimo,
na minha S O L I D Ã O,
nas coisas que o sol ilumina
e que não é de ninguém;
c a u s a s
p r o f u n d a s
é tudo o que POSSUO.

Poemas

A SOCIEDADE

um carro pode ser bom,
mas pode ser um carro bomba;
o mesmo se dá com 
a faca que corta o tomate
e fura o coração.
o cigarro,
o supermercado,
a tecnologia:
câncer.
a pá da construção
cava o buraco
e enterra o corpo;
a fala que pode ser doce,
é também amarga na ofensa.
por debaixo da roupa limpa,
o corpo nu, o cu;
antes do crânio,
um furo de bala no cérebro.
o mito da caverna
com poltrona e televisão;
valores na família,
dívida entre pais e filhos.
daí que vencer na vida
é derrotar o outro;
mudar de postura
é montar no outro.
escolas em chamas,
crianças mortas,
simbolicamente mortas;
melhor se fosse real.