Poemas

DESCONFIADO

essa história toda me soa suspeita,
e tem aumentado com o tempo.
os bichos correm e voam de um lado para o outro, enquanto os homens dirigem seus carros
cheios de cera no ouvido e cocaina no porta-luvas.
suspeito os olhares castanhos,
olhares verde-azuis e gente de óculos;
meus óculos são escuros e sempre protegem.
e desconfio de como as garotas acariciam esses cães selvagens e gatos de rua, e como elas também acariciam o ego de alguns caras para fritá-lo numa frigideira logo em seguida, e todos aprendem e fazem o tempo todo um com o outro; o sujeito flerta descaradamente e acaba atraindo ódio, e vice-versa. logo não se olham mais, vai tudo pelos ares: pelados, em seguida rebelados.
e vejo como os garotos bebem sua cerveja quente e anulam o sexo,
perdem as estribeiras e se drogam para esquecer a falta de dinheiro e o dispêndio que o não transar acarreta e o transar também, entre pílulas do outro dia, cerveja e comida e aborto.
ficar louco!
ficar louca!
desconfio, não me atraio pela loucura dos homens iluminados que vendem livros de cinco mil anos e incensos como purificação total.
cada olhar é uma tristeza diferente, uma desconfiança diferente,
como carros coloridos e cigarros almiscarados.
falam inglês e espanhol e italiano e francês e comentam sobre o cotidiano do país, dos roubos e arroubos.
Haitianos, muçulmanos,
Árabes, americanos, chineses,
ninguém escapa,
o brasileiro está no topo porque o volume é maior.
e desconfio de toda geléia e alegria de balconistas e garçonetes.
de todo vendedor de eletrodoméstico.
essa história toda me soa suspeita, não venha me falar de aluguel,
queda de energia ou falta de água, pois é cada vez mais forte:
eu desconfio do prazer e
sei do arrombo em nossos corações.

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Poemas

LIMONADA

aos muitos vizinhos o
automóvel chama mais atenção que o pássaro,
mas consigo discernir
o canto do ronco.
“saudai os limoeiros,
os asa-deltas e
as romãs”, arranho desafinado.
o açougueiro esgueira entre o muro,
eu apanho dois limões;
O caminhão estremece a vila,
Ford, e enquanto sobe voam pássaros das árvores de todos os cantos.
– Que rua movimentada, não é mesmo? – cumprimento o açougueiro.
– Você gosta de limão? – devolve-me ele.
– Esses sicilianos rendem sucos maravilhosos, e recomendo bater com casca. – ensino.
– O preço está em alta, não é mesmo? – irônico.
– Nos supermercados, é claro – incisivo.
O barulho do caminhão é mais distante.
Subindo, um carro com fumaça do escapamento.
“Um bom suco de limão é o que eu preciso”, penso, e me despeço do homem com um aceno de cabeça.
Um pássaro plainando.
Cachorros em desespero.
Sete horas da noite e é dia,
Devo cozinhar feijão ainda hoje.

Poemas

BARRICADA DE PARALELEPÍPEDOS

aceita um bico…?
de coturno (na face),
um beijo quilofágico
(do meu pé)?

quem sabe é mesmo doído
essa vida a dois,
físico e não físico.

consideremos,
os olhos estão aí.
e os vermes o arrancarão.

Tibet está aí também,
os livros do passado,
os sete degraus da ascensão.

mas e as duvidosas marchas presidenciais?
quem calça o coturno,
e munido de regalias está?
e o que procuram?
aceita um cale-se
de outrora?
perguntam-nos.

é um futuro tão brilhante
de estrelas no céu,
um inverno muito escuro,
rigoroso.

e nossa máscara
Shakespeariana?
o palco é o mesmo,
e diz-se democrático;

mas as armas são reais.

e estamos precavidos?
há paralelepípedos
suficiente para as barricadas?

gostaríamos de convocar
o dia do não estado,
e com certeza será
um dia de guerra e destruição.

mas apanhamos tanto,
coturnos doem dramaticamente.
nós teremos força?
é de se perguntar.

muitos enriqueceram,
muitos estarão para defender
o estandarte oposto.

seremos nós,
Thoreaus de amanhã
os salvadores
Daqui?

ou seremos nós
os donos do coturno?

Poemas

amores e amantes são a mesma coisa, um bom jantar a três
Abóbadas são amores distantes
frutas em que pássaros inescrupulosos bicam
Amores estão prestes a explodir
Você está na linha de frente estando apaixonado assim
olhos lançadores de granadas
paixões são fogos de artifício que explodem na mão
carabinas e bundas distantes
dos lábios escorre o valor do amor
Você está babando, não está? apaixonado assim
ninguém sabe o que fazer
e fazem filhos
amar e não amar é a mesma coisa,
cada qual com a sua sorte
uma fruta que apodrece ao relento
um pássaro que voa sozinho
amores voam alto
mais alto,
passarozinho.

Poemas

PORQUE NEM TODOS SÃO ARENQUES VERMELHOS 

atura,
como bandini aturou
magras laranjas;

como aturo eu,

feito um arenque
vermelho,
gente por tão pouco
sofrer pelo
que não possui –

a ponto
de prantos
vertidos.

atura,
como aturo,
como famélicos
da comunidade vizinha
e ermitões
das longínquas
e gélidas montanhas
do sul.

é a dor de uma violenta paixão,
essa que te tortura o rosto?

aturo,

como uma embarcação
para afundar,
como camilla lopez,
a garçonete mexicana
de cálidos olhos
em sua árdua função,
como bandini derrotado,
forçando o animal descarnado
para dentro do veículo.

quão desaforados!
aí choras?

aí sofre porque é destino?

por que nunca sofreu,
imagina-se.
e nem sei quem mede isso.
a ignorância de um,
a certeza do outro.

ature,
como aturou
arturo bandini,
como tenho aturado:

por vezes com olhos cerrados,
respirando o pó
da minha guarnição interior;

por vezes escancarando
a janela
para que brilhe o sol
a quem a luz interna
está por um fio.

Poemas

ABERTURA

pequenas conclusões
e nenhuma resposta
definitiva sobre nada;
o cinza do céu d’uma Matinhos sem sol,
o voo das gaivotas universais,
pescadores de batatas grossas e morenas canelas inquebrantáveis,
nenhuma resposta;
barcos pequenos,
distantes e perdidos no horizonte;
pequenas conclusões sobre Lúcia,
a pouca idade,
a regência de vênus,
sua pele rosada,
as bochechas arredondadas e uma face de sorriso radiante, incontestavelmente irradiante,
estando os porquês todos
num único movimento de mandíbula;
deito em suas coxas,
ela fica sempre mais rosada e contemplo
o sangue que escorre por seu rosto,
internamente,
puxo a atenção de todos
com uma observação infantil
e Lúcia, corada,
olha-me com profundidade;
me desculpo verdadeiramente,
tudo é verdadeiro ou pelo menos se tornou real para mim;
profusão de vozes,
uma cartela de ácido no bolso d’minha bermuda praiana,
e nem todos estão felizes;
pequenas conclusões
e absorções,
o oceano cantando calmamente
ao som das guitarras espanholas,
movimentos embriagados,
Dionísio empunhando uma garrafa de vinho parecendo satisfeito,
estrelas brilhando com mais intensidade que outras;
haverá grandes motivos por d’trás da imensidão?
é preocupante o pensar do outro,
devemos nos desesperar e forjar uma atuação medíocre,
dessas que amenizam,
tranquilizantes e mentirosas?
ou guerreamos,
mostramos que é preciso vencer os próprios dilemas,
cruéis & doloridos?
pequenas conclusões e acertos é o grande horizonte,
um momento
e então é só agradecer e
mudar em direção ao vento,
e já que estamos nus
nos atirar ao oceano.

Poemas

até que ponto é dolorido?
até que respondam suas expectativas;
até que correspondam suas investidas;
até que o abraço do pai
não seja meramente virtual?

(a saudade nasceu com o homem
e dele só se separa na morte)

até que ponto sua força
pode segurar a lágrima?
até que o suor do esforço
do outro seja o único líquido;
até que os vícios sejam reminiscências;
até que as reminiscências sejam
de vidas celestes superiores?

(é razoável sofrer quando todos
estão felizes na ignorância)

até que ponto pode o olho
se fechar para a dor alheia?
até que a maldição também
o agarre pelos cabelos;
até que o sangue das tuas veias
seja o único líquido;
até que a vaidade
nos extermine de vez?

Poemas

ESTRATO SOCIAL

ó nobre homem solitário;
ó nobre funcionário do mês;
ó nobre sapo venenoso;
ó nobre mulher d’família burguês;
ó nobre cavalo de corrida,
doce lebre acinzentada;
ó nobre cão amedrontado:
o que fazemos aqui?
ó nobre garimpeiro;
nobre hóspede parasita;
nobre carro americano;
ó nobre apreciador de bebidas;
ó nobre trabalhador pesqueiro,
ó nobre homem desmiolado:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
ó nobre avestruz;
nobre sapo cururu;
ó nobre mulher aveludada;
ó nobre cavaleiro sem rédeas;
ó nobre sapateiro capitalista;
nobre trabalhador da limpeza;
trabalhador da construção civil;
ó nobre advogado,
nobre juiz bonachão,
ó nobre soldador sujo de graxa;
ó nobre delegado inviolável;
nobre policial grande e corrupto;
ó nobre presidente rico de um país falido;
parlamentarista fedido;
ó deputado estadual banguela;
ó nobre saltimbanco,
malabarista de facão,
domador maquiado de leão;
tigre de bengala;
guia turístico;
arquiteto;
sem teto;
ó nobre professor;
homem do jaleco sujo:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
você que almeja títulos,
privilégios,
fortuna e luxúria,
que não volta para dentro,
vive do lado direito
mesmo sem estarmos em guerra;
ó nobre homem de negócios,
ó dividendo;
ó nobre vendedor de cocada,
traficante de cocaína;
ó nobre príncipe;
nobre conselheiro;
capitão de navio;
ó nobre guru,
conhecedor das
coisas excelsas;
ó nobre portador de cabeças de gado;
ó nobre trabalhador assalariado;
ó nobre homem de negócios;
ó nobre homem sem negócio;
ó nobre filho da mãe,
do pai,
do espírito santo;
ó guru,
falso organizador de toda a energia
do universo;
ó místico,
conhecedor de todos os sete planos;
ó continuação de Krishna,
extensão de Shiva,
expressão de Brahma;
ó buscador nervoso do nirvana;
ó filósofo, Confúcio, Plotino,
ó Platão,
o que vocês têm a dizer
da nossa atual condição?
ó nobre discípulo;
nobre enfermeiro;
nobre aviador;
ó nobre conhecedor
das causas profundas
do homem;
ó nobre mecânico de automóveis;
nobre borracheiro;
atendente de lanchonete;
ó você que tem problema em casa,
não tem dinheiro o mês inteiro;
você que brigou com a mulher
brigou com a mãe,
com o pai,
com as irmãs,
que está no inferno;
ó você que caminha todos
os dias em direção
a uma condição melhor
de vida;
comece olhando para o alto,
percebendo a magnificência
dos príncipes celestes;
ó nobre homem vivo neste plano,
você já se tornou humano
ao menos uma vez?