Crônicas

me pergunto se haveria um momento de conexão que deixamos escapar por considerarmos em demasia as reminiscencias do dia que passou e não aquelas internas, profundas, que nos conduzem de volta a nossa essência. sempre quando me deito e é perto da meia noite os caras com suas motocicletas começam a desaparecer e é um barulho de escapamento distante agora e o bairro fica silencioso. mas o som do latido dos cachorros parece conduzir nossa mente a profundidades que na terrível tagarelice do dia não é possível, e uma espécie de incompreensão invade nossa mente acelerada, parecida com aquela de quando os pássaros cantam de manhã. percebo que acostumei minha mente como um motor de motocicleta, que com um pouco de combustível continua o movimento em direção a lugar nenhum. não que os motociclistas não tenham objetivo, mas quero dizer que uma vez que destinamos a maior parte da nossa energia a pensar em formas de conseguir combustível para que nossa mente não pare de processar o mundo material, destruímos a capacidade de nos envolver com o silêncio e a busca interior das causas profundas. então, quando os latidos aparecem notamos que existe uma animalidade fora de nós e por alguns segundos percebemos que existe uma conexão em tudo isso, sabendo primeiramente que se os motores silenciam, o mundo volta a expressar sua naturalidade e os cachorros são a chave do mundo imaterial. Uivam e latem para os deuses. Saúdam a existência de modo grosseiro, mas objetivo. é como se nos convidassem a ouvir e voltar, aos poucos, para dentro. e sentir a solidão profunda. e sentir a completa falta ou o excesso de resposta que existe em todo o mistério que nos circunda e confunde. essas coisas necessárias acontecem em noites silenciosas em que todos dormem e apenas latidos vindos de todo o bairro e fora do bairro nos surpreendem.

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Crônicas

O GOZO DO POETA

a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo; daí que os poetas bebem até morrer e choram a dor do fracasso e a desilusão do abandono. por isso quando peguntam se vai tudo bem, vai tudo bem, responde o poeta. o sujeito dos versos, emergido na tristeza estarrecedora, fornece sentimentos de continuidade ao borrar com lágrimas as palavras sofridas do papel, salgando a alma rabiscada que conta sua vida e a vida fora de si ― essa propriedade que a massa imagina possuir, o corpo físico. isso justifica algo, pensa; fica louco e aí a combustão reaparece, sua cabeça abaixada indicando que uma força tresloucada guiará seus pensamentos ao cerne da questão universal, o cataclisma enternecedor, até que tudo vire sol em prosa; e que voltemos à nossa escaldante condição de primata fornicador; falos noturnos. o poeta sabe dos desejos, mas tenta evitá-los, mesmo que muitos deles ― em grande número os malditos ― contribuam para aumentá-los, remunerando-os, exaltado-os em grandes goles de álcool em noites quentes de janeiro e frias madrugadas de agosto. o que todos almejam, diz o poeta, é alguém a quem possa dizer que a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo, depois de gozar.

 

 

Crônicas

VEÍCULO DECADENTE 

o veículo da política global ficou sem combustível, mas insistimos em empurrá-lo ladeira abaixo — tentando trancos em barrancos —, como se o problema fosse de bateria. Alguns se estressam e chutam a lataria, outros protestam, gritam que é coisa errada com o carburador; mas não imaginam que o combustível possa ter acabado, que já não existe posto ou condutor possível que poderá abastecer e pôr em movimento esse automóvel libertador. O apego pela beleza e a ilusão de sua proposta de conforto cegou a população global; não se consegue parar de empurrar, chutar, procurar o defeito que o desgraça. É tão óbvio que chega a ser invisível: a velocidade com que os governantes quiseram chegar ao controle da massa, em vez de unificá-la lentamente, secou o tanque do carro na mesma proporção, e como não se investiu em habilitar bons motoristas, construir boas estradas e principalmente dispor postos de gasolina próximos, o que temos são milhares de quilômetros até o objetivo de nossas vidas, mas sem percebermos que podemos caminhar até lá desprezando o auxílio dessa máquina que empurramos de um lado para o outro — e que há muito não funciona mais —, apenas usando o nosso melhor motor: a união dos povos.

aos governantes e governados, 24-07-2017

hopper
Edward Hopper
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Nada de novo sob o céu

há um Mefisto em cada esquina; estão sob o sol fumando cigarros, esperando o momento de agarrar a sorte pelos cabelos – um mísero cigarro, um trago da sua bebida. eu vivo a virar essas esquinas, desviar de ciclistas, esbarrar em gente apressada. algumas lojas cheiram a incenso e gosto de como são particularmente frias – o azulejo que corta o lugar inteiro com desenhos estranhos em azul, as grandes janelas antigas abertas com vasos de armênias, os filtros de barro e aquelas particularidades pessoais, tipo livros de feitiçaria que remetem aos tempos cróceos da humanidade, quando podíamos acreditar em coisas desse tipo, a moça que usa um véu na cabeça atrás de um balcão, ela me parece uma dessas bruxas bebericando seu chá verde sem timidez nenhuma, quase acendendo um cigarro até, talvez isso tudo esfrie o lugar –, e as porcelanas e tapetes me lembram da imortalidade, apesar de parecer irônico, eles são frágeis; e aquela visão da pomba atropelada bem antes de subir as escadarias de um pequeno shopping vazio e urinar em um banheiro sem água e escuro de cidade cheia de gente fazendo coisas absurdas, tipo trocando antenas de tevê, varrendo folhinhas amarelas das calçadas, os anunciantes com seus unos e suas cornetas gritantes, esse tipo de coisa que os homens fazem diariamente, bater martelo em construções de prédio, o que causa arrepio, uma vez que a humanidade sempre buscou estar no alto, longe do perigo, tipo em cavernas em que predadores famintos  não pudessem chegar, como aquela tribo que constrói suas casas nas alturas, nas copas das árvores, o homem constrói sua casa no alto e foge de tudo, olhando lá de cima um grande número de pessoas se esbarrando, Mefistos fumando dois cigarros de um vez, pombos mortos em meio a buzinadas sem fim, sob o sol, contas a pagar em lotéricas dominadas por jogadores, acabam de sair dos bares e investem suas moedas nas megas e perdem todo o resto de seus dinheiros, mas pelo menos podem ocupar a cabeça com uma esperança, podem acreditar em algo outra vez; entendem que, condizente com o noticiário, suas vidas estão perdidas, e vão morrer, com certeza irão morrer baleados ou alguém os esfaqueará, porque sem dinheiro não podem comprar uma caverna alta longe dos Mefistos malvados, daí sonham com a bolada que os números escolhidos lhes proporcionarão, e tudo que poderão fazer com suas existências até agora falidas, o tanto de gente que ajudariam e a felicidade que de repente passaria a existir ininterruptamente em suas vidas. “bem, quanto custa aquele tapete?” olhando pra moça de olhos muito azuis que agora disfarçava o cheiro de cigarro. “ah, é claro, só queria saber o preço, gostei muito. e do livro também. e as porcelanas são tão maravilhosas! eu volto outra hora, olhos azuis”. porque agora, se eu parar e pedir um conhaque vou resolver esse probleminha com a garganta e ainda me sobram uns trocados pra beber uma cerveja e observar os transeuntes. “Cortês, então me vê um conhaque e uma cervejinha, é o dinheiro que tenho”. “obrigado, estou com a garganta arruinada, mas as coisas estão bem despreocupadas hoje, acho que mais tarde vou dar um pulo na casa da Paulinha, bem, ainda não sei. mas obrigado, vou fumar um cigarro junto destes Mefistos e ver se acontece alguma coisa, porque pelo jeito hoje é mais um dia sem nada de novo sob o céu”.

Crônicas

A Vida Selvagem

Destino algum tempo a assistir documentários da vida animal, na minha vida animal. Naqueles momentos de ócio e tristeza que só são possíveis ao humano ― temporizo, retardo, alongo-me diante de uma televisão. Gosto e admiro animais selvagens, de modo que aprendo com eles e pareço ser descendente direto de alguns, em vários aspectos ― o macaco, por exemplo, já que não levo muito a sério as coisas e me agrada alegrar pessoas por onde passo, sendo a banana minha fruta predileta. Aliás, não apenas animais selvagens, mas os artrópodes também me inspiram, em seus micro mundos ― tatu-bola-de-jardim, centopeias, percevejos, caranguejos, etc. Bem, não conheço se o leitor já teve a oportunidade de ver um tigre acasalando. Teve? É inspirador. Devo dizer que quando me apelidaram por tigre, não me senti, de forma alguma, ridicularizado. Mas os motivos de me chamarem assim diferem dos que possam estar pensando. Meu apetite sexual não chega aos pés daquele do tigre, e minha barulhenta agressividade se limita a tímidos tapas bêbedos em bundas flácidas e tristes de gente que nem conheço. Bem, talvez aí eu me aproxime de alguns bichos, bichos humanos. Na selva, vence o mais persistente, aquele que quer realmente conquistar. E como não querer? É a maldita lei da sobrevivência. Dia desses uma lágrima caiu dos olhos de uma amiga ao ver a pobre zebra morrendo na boca de um leão. Depois comeu um hambúrguer bovino para estancar a própria dor. Que mundo irônico. E falando em leão, por que haveriam os elefantes de gostar dos leões? Elefantes são plácidos, pachorrentos, alegres ― banham-se no barro e suas trombas são engraçadas. Leões são mesquinhos, convencidos e atrozes ― comem todo mundo e não se deixam comer. Intitulam-se reis. Mas devo admitir que é possível aprender alguma coisa com esses bichos, mesmo com o rei. O leão é persistente, olha ao redor, perscruta, ataca em momentos propícios, é ação, fluidez. O elefante é percepção, grandes orelhas para ouvir bem e se esquivar de falsos profetas, são sensíveis, apesar do tamanho, e seus olhos pouco podem ver do mundo material, são intuitivos e vivem para atingir a iluminação.

 

(em andamento) 

Crônicas

O Chacoalhar Nosso De Cada Dia

Cada estado tem seu estilo; todo país sua derrota e vitória. Todo estilo é bem e mal visto. Cada derrota e vitória tem sua contraversão histórica. Atrás do volante e sem parecer à beira do colapso — vestindo bermuda com cinto e camisa d’elástico —, o motorista do Inter II — 18:25 — usa óculos escuro e nós sabemos de sua relação matrimonial — Adilson — e também que é safado, pela marca da aliança no dedo. Cada dia tem sua alegria, mas todo o resto é dor, letargia. Da noite mal dormida, à ida pra casa pós suador — cachamorra!
Para quem é senhor dos motores, o som daquela cobra-articulada é como o de uma flauta de bambu — gramofone. Mas para nós, tratores demoníacos; clamor de trompa; e sabe o que mais? Alarido — fuzuê. E quando é dado a largada — portas abertas na plataforma — a fila é deixada para os bancos e suas faixas amarelas e compras de pão em padarias de trigos contaminados. No Inter II só queremos entrar, desavergonhadamente sentar, e com cara de quem não está aí, dormir. Mas azarentos como eu não sentam, acreditando porém em uma nobreza surgida repentinamente, quando assustados idosos refestelados e protegidos contemplam a paisagem, espiritualmente amedrontados por tudo o que ainda está por vir. Porvir Celeste.
Em pé, a luta é de gigantes. O flerte é para quem sabe do poder do reflexo nas janelas fechadas, que sempre abro mesmo no frio. Cansados demais para convencer, aceitamos o estado de nada ter e esperamos, no cio. Casar casamos a cada estação, na carência da nossa imaginação fértil. E por que não lembrar do fedor, do rancor, da insanidade? Trancados em uma lata ambulante somos capazes mesmo de acreditar em uma destruição massiva. Ó, como criticamos e somos observados, Sr. Adilson! Como sonhamos dormindo acordados! Tem que ser poético pelo menos em teoria, porque patético o empirismo nos prova ser, todos os dias. Dormir e acordar, perfumados para o ônibus lotado, enlatados. Trabalhar e suar, o fedor da volta dos alienados. Mas é meu ponto de vista, um olhar embaçado — cretinice talvez. Entretanto, aprendi do sofrer e iludido não sou, sei que viver é suportar, mesmo na falta do amor.
Pois bem, mancebo, acredite: aquele olhar não era pra mim, e nada na matéria há de nos guiar. Rebusco, místico. O justo seria se não fosse assim, mistério sobre mistério, sem eternidade e enterrados no fim. Cada estado tem seu buraco e todo motorista quer ser feliz — longe deles. Mas a cada demonstração de força do homem atrás do volante, um pensamento de ódio o atinge nas costas, e é cada dia mais nítido as rugas em seu semblante — nota-se. Forço o não pensar, foco no lá fora, para além do reflexo e do flerte, mas algo acontece no quando me esbarram, aqui e agora, alvoroçados por sumir. Após o aperto, “pi”. Cada país tem seus maníacos em potencial, e metade deles falam alto ao meu lado todos os dias — sobre novelas, o fator comercial, políticos, afazeres domésticos e cansaço físico-espiritual.
Abram os olhos para ver caso não prefiram dormir — vocês que estão sentados e longe do perigo —, também haverão de sumir.

Crônicas

Sobre política

pensemos em uma pirâmide, olhando-a de baixo e por todos os ângulos. de um lado encontramos a ciência, do outro a arte, daí vem a política e enfim a religião. no topo da pirâmide encontra-se a filosofia, que é mediadora dessas quatro condições da vida humana. segundo o pensamento filosófico, as coisas que nos são caras ganham o nome de “bom, belo e justo”. e político deveria ser o sábio, aquele que sente a unidade da natureza e sua própria conexão com o todo; que conhece os ciclos e entende os movimentos e as pessoas que governa como filhos; deve entender das necessidades básicas das crianças de que cuida e trazer harmonia para dentro da sociedade, movendo-a a encontrar o caminho de sua essência. mas, na política global do nosso tempo, os governantes se apropriam do poder e trabalham motivados pelo lucro pessoal, sem considerar qualquer pessoa e sem nenhuma ideia de qual seja o seu papel neste mundo e dentro da política. é por isso, e por outras coisas, que não sabemos o que somos e nos angustiamos, mortos de preguiça, tédio, aversão e depressão, todos viciados e presunçosos, longe de qualquer virtude. não conhecemos nossa história, e somos manipulados dentro de um jogo que não possui fundamento, aonde vendem peças de um quebra-cabeça que jamais será montado, e que com as propagandas certas é capaz iludir e retardar nosso desenvolvimento, induzindo-nos a comprar e continuar a devastação da natureza e da humanidade e do divino que reside em nós. bem, a doença é humana e devasta a natureza, sabemos disso: mas o planeta se recompõe. e a gente? a mudança só pode acontecer ao voltarmos para dentro — é hora de atentar-se a esta frase tão estigmatizada. imagine 200 crianças em uma casa enorme com comida para vinte dias; quanto tempo elas acabarão com tudo? e quem limpará e separará a briga que em seguida tumultuará o recinto? o político deveria ser essa mãe que afaga, educa e cuida de seus filhos. mas as manifestações, os cartazes, a guerra de um contra o outro só mostra que a decadência deste sistema chegou, que as crianças estão se matando dentro desta casa ruidosa e estamos vivendo nossa Idade Média, que no lugar dos grandes castelos fechados e taciturnos temos nossos condomínios com áreas de lazer. é preciso pensar por si, desvencilhar-se da ideia de shopping e encontrar os valores humanos que existem em nós. esses senhores pagarão, porque na natureza tudo é harmônico e seu movimento não é trincado; a primavera sempre volta e o fim dessa bagunça chegará, mas não antes de entendermos quem pode fazer isso e como fazer. voltar-se para si é o melhor presente que o outro poderia ganhar para o futuro, e jamais deveríamos deixar de pensar no bom, no belo e no justo — aqui e agora.