Contos

CARRO FUNERÁRIO E BRIGA DE BAR EM UM DIA DO MEIO DA SEMANA

Eu fui beber cerveja no bar daquele japonês sisudo; não sei por que apareço naquele lugar, deve ser pela mureta. O bar do japonês tem uma mureta que se pode parar e fumar cigarros sentado nela, bebericando cervejas em aborrecida melancolia. Fiz isso durante todo o primeiro litro. No segundo, apareceu o carro funerário; havia um caixão e algumas flores em sua traseira. Cena curiosa, de repente eu estava pensando na morte tragando aqueles montes de cigarros e bebendo com muita diligência minha Antártica Litrão. No terceiro copo, outro carro funerário apareceu, misterioso, e dessa vez era um carro diferente. Comecei a pensar que fosse daquelas  mensagens que devemos nos atentar; daquelas que aparecem e nos alertam de perigos iminentes. Por qual motivo estaria eu ali bebendo? Não tinha decidido abandonar esse vício? Tudo bem que fosse a despedida, mas soa engraçado agora. Talvez fosse o meu último dia na terra. Dessa vez, na terceira vez que os carros funerários passaram, passaram juntos. Acho que estavam rodeando o quarteirão, um procurando o outro como cabras cegas, ou estavam em busca da casa do morto. De qualquer forma, terminei minha cerveja, paguei ao japonês e subi o Largo. Cheguei na Trajano e parei no Villa Bambu; meia hora depois um sujeito começou uma confusão com o nosso amigo Davi. Íamos matar o cara; ou talvez fosse o meu momento de morrer? Esperei a discussão morrer primeiro depois me despedi das pessoas, sumindo pelos paralelepípedos até o ponto mais próximo.

Haviam muitas coisas com que pensar em minha viagem de volta.

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Contos

NA PIZZARIA

― Pode ser a 15, sopa de caldo de palmito com camarão.
―  Algo pra beber?
―  Uma cerveja, por favor. Naquela mesa do canto.

Espero. O nome. Quanto? 16. Obrigado. Não demora. Sentar, encher, beber. Olhar. Ouvir. Olhar. Família. Criança. Garçom. Um cara. Dois caras em duas mesas. Olhares. Quadro. Pizza. Eu. Frio. Uma fria ter vindo. Pensar. Vestimenta. Cabelo. Olhares. Minha beleza. Criança, bonito. Senhora do lado, feio. Julgar. Aquário. Peixe. Solidão. Água. Sopa de camarão. Criança. Globo. William, Bonner. Não escuto. O peixe. O Bonner. O papa. Colher. Quentura. Torradas. Cebolinha. Queijo… Fumaça. Sopa. Eu deveria ter vindo. Obrigado. Garçom. Família. Conversa. Que bosta. Comida. A bruta flor do querer. Banheiro. Novela. Masculino. Caetano. Feminino. Pizza. Rodízio. Dionísio. Peixe, cerveja. Acaba. Sopa. Levanto.

― Faz pra viagem também?
―  Qual você querer.
―  Achei muito boa. Pego qualquer hora.
― Obrigada. À disposição.

Contos

Animalidade

Já acordo vestido, o gato ronronando em meu peito; coloco o tênis, ração, mordo um pedaço da maçã. Tenho que sair com o cachorro e esquecer. Pássaros singram o céu, dormem em sua muda e leitosa brancura. É Junho, vi escrito num cartaz de propaganda, 12 de Junho, dia mundial contra o trabalho infantil. Ainda tenho um pedaço de remela no olho bom, vi no espelhinho da fotografia da mãe de Ofélia – ela segura uma bacia de ponche com um sorriso amarelo e um lenço de bolinhas na cabeça. O câncer a matou. Estou acordado. Em uma das faces de minha bunda, O Furúnculo: humano, demasiado humano. Não sento, não escuto, não vejo. O cachorro lambe minhas canelas e balança o rabo, rodando, sentindo que sairemos e pegaremos o sol. Estou dormindo. Eu durmo vestido e só preciso colocar o tênis e sair. Quantos invernos você sabe que blusa de lã se veste com os punhos cerrados? Descobri depois de 26. Penso em ação, colocando a coleira no pescoço de Krishna, que não para de rodar um minuto. A casa fede. As fezes estão espalhadas pelo chão e tudo é caótico e desorganizado. As fezes de Krishna estando no centro, envolta em urina, as do gato, cantos escuros, atrás de portas. Abraão só precisa da sua caixa de areia de volta. A caixa está arrasada, suja, destruída. Cachecol e óculos escuro, uma maça transitando em meu estômago. Faz muito frio, manhã Junhosa, quase 10 dias antes de entrarmos oficialmente no inverno; mas prefiro congelar a ter de ouvir as lamúrias da Ofélia quando acorda de ressaca. E logo é hora. Ofélia Lamúria Albuquerque. Ela se droga dia e noite e quando me vê acha que devo saber de tudo, cada minúcia de suas experiências, amorosas e não-amorosas. Toxicomania. Mas ela não sabe d’meu eterno furúnculo. Nem que estou planejando uma longa viajem para o infinito de mim mesmo. O homem auto-destrutivo, li em um papel de post it tempos atrás,  não quer apenas o próprio fim, mas quer tudo acabado, sonolento ou violento. Quer que você reaja a tudo o que ele diz, mesmo que sua visão, de tão turvada, pouco ou quase nada enxergue de você. Nossa postura afirmativa de nada vale, e é quase impossível um diálogo verdadeiro. Desses que travo com Krishna, ou Abraão em noites de chuva. Sinto a língua de Krishna em minha calça de moletom, automaticamente o cheiro de suas fezes. Lá fora um sujeito vendendo pão de forma em um Uno Miller, a corneta sibilante faz Krishna latir. É um anúncio triste e distante. O pão parece estar mofado, artólatras. Só vamos sair por aí, tênis, moletom e cachecol. O vento lambe a minha cara, machuca meus lábios. Krishna aprova o modelito, saliva e o lambe junto com o vento. Somos de carne e osso, coca cola e leite. Ela não sabe caminhar civilizadamente, entra no meio das minhas pernas e parece querer que eu esmague o seu crânio. Para e cheira demoradamente todo xixi e todo matinho que consegue encontrar. Muitas vezes eu quero enforcar Krishna. Lançá-la embaixo do ônibus, causar alvoroço no Abaeté. Mas em seguida me abaixo e começo a acariciá-la loucamente. O pensamento me dói, mas o perdoo. Ergo-a à altura do peito e a contraio. Ela me olha com grandes olhos esbugalhados, então a devolvo aos seus matinhos. Um ar frio entra pelo furo na lateral do meu tênis. Nós fazemos isso todos os dias, somos como que melhores amigos. Mas ela sabe que uma hora eu a matarei. No fundo sei que ela sabe. Mas treinei Krishna no estoicismo. Serena, pachorrenta. Dê ao homem a ferramenta e peça para desparafusar alguns parafusos enferrujados, conhecerás a pessoa que está a seu lado. O estresse e a angustia, a ganância e o alvoroço na busca pela moeda, a escatologia, a Nike, o não ter, a falência de espírito, o coração prestes a explodir, implodir, o ferimento de um para com o outro, o entorpecimento, todas essas coisas crescem a uma velocidade inimaginável. Abraão é o melhor bicho, neste sentido, para dizer isso. Quero dizer, para se observar e seguir o exemplo. É o melhor bicho para aprendermos a como agir. Um gato. Krishna rosna, inofensiva. Já caminhamos 8 quarterões de volta. Então temos um total de 16 quarterões rodados. O ar gélido no pé. Os lábios rodeados de casquinha. O ônibus que passa a nosso lado. Já na hora do almoço, estamos de volta. Abraão nos recebe. Ergo a cabeça do cadeado na grade, Ofélia está sentada na varanda, na cadeira. O cabelo feito juba, alaranjado, a xícara numa das mãos, o baseado na outra, um cigarro queimando no cinzeiro na mesinha azul de centro. Maquiagem borrada, hálito forte de decomposição. Penso rápido, sei que a melhor desculpa é dizer que preciso ir à cidade comprar qualquer inutilidade. Hoje acordei pronto para nunca mais voltar.

Contos

Sozinha e inerte, esperei.  Foram anos olhando ao redor, perscrutando, imaginando qual daquelas gigantescas senhoras tombariam primeiro. Mas tinha gente ali com 2 mil anos de idade. Gente respeitada na floresta inteira. Daquelas que, em seus corpos exuberantes, abrigavam milhares de vidas, e que apesar de milenárias, eram ainda mantenedoras da serenidade e complacência para com muitas expressões, de artrópodes à mamíferos. Mas na noite passada, enquanto eu observava um escaravelho esquisito em sua tentativa de subir uma Araçá, um furioso furacão apareceu acompanhando a tempestade que vascolejou nossa floresta. Era como se nos tivessem colocado em um enorme globo de neve e agitado com força; pareciam querer misturar os produtos químicos de uma floresta alquímica em chamas, deus adicionando água e vento como se fosse sua panaceia, o golpe final de salvação. Esperei. O vento derrubou muitos bichos das árvores, e muitas árvores menores também. Desentocou todo mundo, destruiu ninhos e depenou a copa de muitas árvores conceituadas. Tudo voava e eu voei mais do que ninguém, em minha leveza de semente. De repente, aranhas desnorteadas, roedores em pânico, gafanhotos amedrontados, e toda sorte de espécies juntas em reboliço atingidas por todo tipo de infortúnio, com ventos acima dos cento e vinte quilômetros por hora, estavam à minha frente, pisavam-me e gritavam lamúrias, como se não estivessem acreditando em tamanha violência dos criadores. Sob todos os aspectos, depois que o furacão se foi, permaneci parada, cheia de galhos e folhas, percevejos e formigas passando sobre minha cabeça. Eu estava habituada à rotina de tempestades, não furacões, mas ainda assim, como sempre, sozinha e inerte, esperei. E a noite correu. O vento aos poucos foi diminuindo, e uma chuva fina transitou por toda a madrugada. E parecia uma madrugada estranhamente silenciosa, como se a floresta tivesse encontrado a pedra filosofal e estivesse em êxtase, transformando o coração de chumbo de bichos mal intencionados em corações de ouro. Lentamente, o dia foi se mostrando, tímido e cinza. Quando o sol apareceu e a floresta clareou, comecei a tremer e gritar de emoção. O momento havia chegado. Parei bem no meio de uma clareira formada pela queda de um emaranhado de pobres e antigas Julianas. O contato com o sol, mesmo que tão fraco naquele momento da manhã, colou minhas costas na terra, que estava bastante molhada. Senti toda a energia da mãe natureza, e parecia que finalmente encontraria a conexão que eu tanto havia esperado: meu segundo nascimento. Pouco me apercebi dos cadáveres estendidos por toda a clareira, porque algo muito forte me sugava para dentro da terra. Tudo era dor e o tempo desapareceu. Eu já não via ou ouvia nada além da minha própria consciência. Talvez por isso não sofri, apesar da dilaceração constante. Eu era uma fagulha e sabia disso. Enquanto semente, estive limitada. Havia apenas pensamentos pré-concebidos e sentimento de culpa.

 

 

(Em processo) 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Contos

DE DENTRO DO ÔNIBUS

a senhora de vermelho entrega panfleto no sinal – 1, 2, 3 – homem do Volvo joga bituca e fecha vidro.
cego canta no ônibus, entrou no tubo do Detran, enquanto calendários com salmos tocam o coração das pessoas que não podem ajudar. o cara da moto deixa o carnê em cima da geladeira e costura o engarrafamento, acreditando em sua invencibilidade; a fisionomia é de raiva. a moça, que já conheceu o exterior e ganhou do pai um automóvel do ano, dirige com os vidros fechados e fala ao telefone sem parar, como se nada neste mundo pudesse afetá-la. por que tanta alegria? será culpa do ego, fazendo-me acreditar que nada é mais claro que minha visão? ou a ideia de que ainda tenho pizza na geladeira? o grupo de garotos parece ter bons motivos para sorrir, não param de mostrar os dentes e gritam feito… voltam da escola com mochilas descidas à bunda. algumas garotas caminham à frente, estão bem mais próximas uma da outra e falam muito mais baixo. um cara estranho e raquítico caminha com roupa de ginástica, torto e feio. a mulher ao lado da banca, um pouco acima dos oitenta quilos, acende um cigarro.
Rua dos Operários – Ed. Tulien – bicicleta Vanzo pendurada num carro preto – um avião que ninguém viu. quase escuro e o sujeito de calças amarelas e camisa dentro das calças ainda usa seu Vitor Hugo protegendo os olhos.
Minha viagem chega ao fim.

 

 

Contos

O AMIGO QUE QUERIA ROMPER COM A HUMANIDADE —

(a música, o sorvete, o porre federal e o transe que modificou o status de suas pretensões)

14 de Maio de 2014

QUARTA FEIRA, 03:19 DA MANHÃ

o telefone toca.
me levanto, a cerveja numa das mãos.
do outro lado, voz animada, bêbada — um amigo:

“meu velho, por um momento hoje estive decidido a romper com a humanidade”…

ESTEVE DECIDIDO: ROMPERIA COM A HUMANIDADE

“vê só”, continuou, “coloquei algumas roupas naquela mochila do exército que ganhei do meu avô, sabe? umas latas de salsicha, ketchup, algumas bolachas, pacotes de feijão, uísque, temos bastante uísque aqui… encontrei uma panelinha, uma dessas alaranjadas — sabe aquelas panelinhas alaranjadas? — que certamente me seria muito útil e mamãe não usava mais, minha mãezinha, simplesmente não gostava daquela panela, era o alaranjado, não conseguia… enfim, amontoei boa quantidade de suprimentos, dois meses eu diria, não é incrível? estava tudo ali, tudo dentro da mochila”.

PORTANTO: SUPRIMENTOS PARA ROMPER COM
depois de uma curta pausa:

“quer dizer… você sabe que moro no alto, não sabe? moro no alto, daqui de cima vi com estes dois olhos marejados — sim, tudo esteve muito claro hoje — aquela senhora e sua sacola contendo talvez dois mini supermercados dentro, há há há, dois mini super ‘mercadões’ inteiros cara… ééé, pobre senhorinha, toda enrugada e caminhando, caminhando sabe-se lá pra onde — a velha caminhava! um milagre, não é? e ainda tinha as sacolas, dava pra ver o papel higiênico, o papel ameaçando um pulo mortal, o detergente, essas coisas, estava tudo lá.

TUDO DENTRO DAS SACOLAS: DOIS MINI SUPERMERCADOS INTEIROS, CARA

respiração, barulho de isqueiro (cachorro latindo ao fundo), voz:

“aí, é claro, fiquei me perguntando — às vezes fico me perguntando, compreende? —, fiquei me perguntando: ‘ora, ora, ora, por toda a vida essa senhorinha enrugada buscou a eternidade, sempre conflitando com seus mais vigorosos instintos, uma luta desesperada na busca por fazer parte dos indivíduos divinos das alturas, aqui de cima, quer dizer, do céu, mas o que ela faria com a eternidade, pelo amor de Deus? ‘um não parar de caminhar em direção ao mini supermercado’, diria o pensador. ‘uma eterna volta para casa empunhando sacolas’… de qualquer forma, qual é mesmo o nome daquela maldita palavra? não é EUDAIMONIA? esquece”…

outra pausa, cuspe, voz (desta vez com animação renovada):

“você é um bom amigo, não é? você é um homem virtuoso, um bom camarada. o que quero dizer é o seguinte: continuei naquela janela, continuei observando, mas tudo era entristecedor, fúnebre. os carros passavam, novos e usados, todos iguais, as cores eram diferentes, e num desses importados um homem, um desses gramofone-gangster de óculos escuros aliado às forças malignas do governo, enfim, um homem importante, mas logo sumiu, ergueu o vidro e sumiu… mas tinha outro, eu via perfeitamente — você me acha dramático? — , um homem grande e espalhafatoso, ele comia na lanchonete daquele japonês, conhece? ele comia e comia, nessa hora as crianças barrigudinhas e maltrapilhas passavam por ali, tristes, lembrei-me de um pensamento alheio muito razoável, interessantíssimo agora: ‘um homem gordo a comer codornas enquanto crianças imploram pão constituí visão desagradável’… não é verdade?”

COMER CODORNA ENQUANTO CRIANÇAS IMPLORAM PÃO: VISÃO DESAGRADÁVEL

sem qualquer sinal de cansaço, o amigo continuou — enquanto eu abria a terceira cerveja, sempre concordando, sempre muito interessado:

“em seguida — você não desconfia o que vi com estes dois olhos aqui, estes dois marejados olhos? —, em seguida apareceu a motorista divorciada histérica — deduzi, entende? —, uma morena de meia idade, seios lindos… cof cof cof… despreocupada, fumava um cigarrinho com muita vontade e o carro não estava, digamos, lento, sabe? o carro vinha rápido, muito rápido… tinha um cachorro parado, esperando — EU VI! o viralatinha esperou e esperou, na hora exata precipitou-se em direção ao veículo de modo que duas rodas ameaçadoras e fatais passaram com precisão sobre seu dorso. o circo estava armado. a mulher fugiu com suas tragadas trágicas, o homem continuou comendo suas codornas, mas todo o resto da humanidade parou para observar o animal sarnento sem vida, uma tarde bolorenta, oh, tão bolorenta, observavam com certo deleite a morte. eles diziam: ‘oh Deus, como pôde, como pode? ela fugiu, a cadela fugiu! o pobrezinho indefeso! como é horrível, como é doloroso! ele só queria viver, viver!’… meu caro, eu vi! o animal havia claramente cometido suicídio. era Nietzsche…do, entendeu? há, há, há… abandonava o nosso mundo cruel por vontade própria! era tudo, aquilo bastava; não seria necessário provar mais qualquer coisa… mas as pessoas continuaram ali…. passariam a tarde, COMPREENDE? passarinhos a tarde — há, há, há”.


quero poupá-los do resto desta conversa sem cabeça.
eu tinha minha cerveja, meus cigarros.
ele estava completamente embriagado.
A QUESTÃO ERA:
estava feliz e tomou um porre federal.
precisava falar.
(vou narrar o que ele queria me contar, mas confesso que a partir daqui os acontecimentos podem não ser o esperado por você até agora, se é que você esperou alguma coisa)


Nesse mesmo dia esse meu amigo acordou muito contrariado com o mundo. Um tédio terrível havia colaborado para que tomasse a surpreendente decisão de romper com a humanidade. Juntou montes de coisas “necessárias” numa mochila e decidiu que partiria para o Rio de Janeiro e armaria por tempo indeterminado acampamento na Floresta da Tijuca. Em sua cabeça estava tudo perfeitamente resolvido. “Uma aventura realmente prazerosa”, ele dizia. “construirei uma cabana… Já ouviu falar em Thoreau?”, perguntas desconexas e incessantes: “e do submarino Nautilus, do capitão Nemo? não? nunca? oh, eu serei o capitão Nemo, compreende?” Eu não estava inteiramente convencido de que esses personagens existiam de fato, mas ele insistia convicto: “eu serei o capitão Nemo, serei sim, mas não terei oceanos…” escreveria, portanto, uma carta aos familiares e explicaria o rompimento. No entanto, quando estava já na entrada do prédio com a mochila nas costas e o moderno óculos escuro na face, uma violenta vontade de usar o banheiro o dominou. “quando enfim cheguei à rua, que merda, literalmente que merda!, o sol estava cruel, fortíssimo, eu havia esquecido o maldito protetor, e meu estômago não estava bem, sabe?”, informou-me ele. O estômago, antes de dar os primeiros passos em direção ao rompimento com a humanidade (que seria qualquer floresta próxima, caso os 54 reais e alguns centavos que possuía não fosse suficiente para chegar ao Rio, de São Paulo), começou a emitir barulhos realmente estranhos e uma necessidade fisiológica apresentava-se naquele momento tão pouco propício, de modo que a vida, mais uma vez (talvez a última), mostrava-se injusta para com o meu amigo. Voltou correndo, pegou o elevador e logo estava no 417. Correu ao quarto, achou o violão — afastando com os pés a massa de objetos jogados por todo o recinto — (só podia defecar tocando violão, hábito adquirido com o pai) e sentou-se sobre o vaso sanitário. Enquanto os dejetos bombardeavam o oceano do capitão Nemo, os dedos deslizavam maravilhosamente pelo braço do instrumento: “havia uma magnífica melancolia nas notas que saíam de minhas investidas automáticas — consegue sentir? — de modo que, muito encantado com tamanha simplicidade harmônica, criei uma música inteira, uma música inteira!”. Deu a descarga e dirigiu-se imediatamente ao computador. Escreveu uma letra absurdamente linda, jamais imaginada pelo homem, alguma coisa de divino — melhor dizendo, “dionisíaco” — estava naqueles versos, bem à sua frente, brilhando. Sua percepção logo o fez acreditar que algo de grande acontecera ali. Ouviu um barulho, era a irmã que chegava com uma amiga para tirá-lo do transe. Ela trazia sorvete e tinham como objetivo preparar granola caseira para misturar (ele adorava sorvete com granola) e passar a tarde esbanjando-se como mães solteiras desempregadas que eram. Decidiu, estranhamente preguiçoso, esperar um pouco mais para prosseguir com sua empreitada rumo ao rompimento total. Voltou ao computador, pegou o violão e não acreditou quando mais uma vez cantou e tocou aos gritos sua música do caralho. Fez um vídeo. Depois de quase uma semana sem “dar as caras” no Facebook, decidiu postar ali sua obra-prima. Um sucesso! Logo os likes surgiram aos milhares. Quer dizer, “foram poucos, mas significativos, sabe?”. Antes as formigas perambulavam por ali desinteressadas e nunca expressavam o amor que sentiam por ele. Um simples “nossa, nossa, que dia mais bonito”, ostentado no status, renderia milagrosos 18 likes. “18 cabeças, cara, e todos me amavam”. permaneceu um tempo online, logo o convidaram a uma festa, logo o dia deu lugar à noite…


o resto não pode ser descrito, quer dizer, uma ostra não coloca em risco o universo, como diria o ecologista, eu até poderia, mas é preferível não fazê-lo.