Ensaios

o estômago é a alfândega que revista almôndegas duvidosas.

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Poemas

Pombos

engraçado o movimento d’pescoço
dos famélicos pombos matinais,
tão pequenos e prepotentes,
cinzas e brancos e pretos,
bicando migalhas no terminal
do Bairro Alto, um pedaço de sol
disputado pelos cães vagabundos,
cinco deles dormindo em pneus
comunitários com patas caninas
pintadas nas laterais
e cobertores auxiliares;
latem para mim
porque tenho uma aura carregada
de dor, e só faço criticar pombos
e cochilar em pé enquanto o ônibus
não aparece.
rechaço mentalmente o café
já adoçado da lanchonete do terminal;
já não me preocupo com
leituras matinais, tirinhas,
pão de queijo ou todos aqueles chás da tarde.
uma única vez matei um pombo;
ele estava com o peito estufado,
pomposo e eu era só uma criança
que tinha um estilingue bem feito,
uma forquilha encontrada
numa aventura através de pés
de goiaba e jabuticabas;
mas não só o estilingue,
eu tinha algo ainda mais mortal,
amigos assassinos de pássaros
e bastante persuasivos,
de modo que,
sem pestanejar e invocando o espirito da morte,
mirei e estiquei a borracha soro
até encontrar minhas bochechas rosadas
de criança,
um olho fechado, a testa franzida
e uma concentração meditativa incrível;
a pedra, arredondada,
abrira um buraco considerável no peito do pombo,
sua queda foi instantânea
e tive a pior sensação que um
garoto idiota poderia ter;
o sangue do outro se apresentava pela primeira vez
a meus olhos e observei
o pombo caindo feito suas fezes traiçoeiras
para nunca mais voar.
as nuvens sumiram de vez
e o sol me cegou,
nem sei se estive realmente acordado:
meu ônibus acabara de chegar.