Crônicas

O GOZO DO POETA

a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo; daí que os poetas bebem até morrer e choram a dor do fracasso e a desilusão do abandono. por isso quando peguntam se vai tudo bem, vai tudo bem, responde o poeta. o sujeito dos versos, emergido na tristeza estarrecedora, fornece sentimentos de continuidade ao borrar com lágrimas as palavras sofridas do papel, salgando a alma rabiscada que conta sua vida e a vida fora de si ― essa propriedade que a massa imagina possuir, o corpo físico. isso justifica algo, pensa; fica louco e aí a combustão reaparece, sua cabeça abaixada indicando que uma força tresloucada guiará seus pensamentos ao cerne da questão universal, o cataclisma enternecedor, até que tudo vire sol em prosa; e que voltemos à nossa escaldante condição de primata fornicador; falos noturnos. o poeta sabe dos desejos, mas tenta evitá-los, mesmo que muitos deles ― em grande número os malditos ― contribuam para aumentá-los, remunerando-os, exaltado-os em grandes goles de álcool em noites quentes de janeiro e frias madrugadas de agosto. o que todos almejam, diz o poeta, é alguém a quem possa dizer que a vida é um incêndio muito provavelmente criminoso em que o equipamento incendiário é o gozo, depois de gozar.

 

 

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