Contos

Animalidade

Já acordo vestido, o gato ronronando em meu peito; coloco o tênis, ração, mordo um pedaço da maçã. Tenho que sair com o cachorro e esquecer. Pássaros singram o céu, dormem em sua muda e leitosa brancura. É Junho, vi escrito num cartaz de propaganda, 12 de Junho, dia mundial contra o trabalho infantil. Ainda tenho um pedaço de remela no olho bom, vi no espelhinho da fotografia da mãe de Ofélia – ela segura uma bacia de ponche com um sorriso amarelo e um lenço de bolinhas na cabeça. O câncer a matou. Estou acordado. Em uma das faces de minha bunda, O Furúnculo: humano, demasiado humano. Não sento, não escuto, não vejo. O cachorro lambe minhas canelas e balança o rabo, rodando, sentindo que sairemos e pegaremos o sol. Estou dormindo. Eu durmo vestido e só preciso colocar o tênis e sair. Quantos invernos você sabe que blusa de lã se veste com os punhos cerrados? Descobri depois de 26. Penso em ação, colocando a coleira no pescoço de Krishna, que não para de rodar um minuto. A casa fede. As fezes estão espalhadas pelo chão e tudo é caótico e desorganizado. As fezes de Krishna estando no centro, envolta em urina, as do gato, cantos escuros, atrás de portas. Abraão só precisa da sua caixa de areia de volta. A caixa está arrasada, suja, destruída. Cachecol e óculos escuro, uma maça transitando em meu estômago. Faz muito frio, manhã Junhosa, quase 10 dias antes de entrarmos oficialmente no inverno; mas prefiro congelar a ter de ouvir as lamúrias da Ofélia quando acorda de ressaca. E logo é hora. Ofélia Lamúria Albuquerque. Ela se droga dia e noite e quando me vê acha que devo saber de tudo, cada minúcia de suas experiências, amorosas e não-amorosas. Toxicomania. Mas ela não sabe d’meu eterno furúnculo. Nem que estou planejando uma longa viajem para o infinito de mim mesmo. O homem auto-destrutivo, li em um papel de post it tempos atrás,  não quer apenas o próprio fim, mas quer tudo acabado, sonolento ou violento. Quer que você reaja a tudo o que ele diz, mesmo que sua visão, de tão turvada, pouco ou quase nada enxergue de você. Nossa postura afirmativa de nada vale, e é quase impossível um diálogo verdadeiro. Desses que travo com Krishna, ou Abraão em noites de chuva. Sinto a língua de Krishna em minha calça de moletom, automaticamente o cheiro de suas fezes. Lá fora um sujeito vendendo pão de forma em um Uno Miller, a corneta sibilante faz Krishna latir. É um anúncio triste e distante. O pão parece estar mofado, artólatras. Só vamos sair por aí, tênis, moletom e cachecol. O vento lambe a minha cara, machuca meus lábios. Krishna aprova o modelito, saliva e o lambe junto com o vento. Somos de carne e osso, coca cola e leite. Ela não sabe caminhar civilizadamente, entra no meio das minhas pernas e parece querer que eu esmague o seu crânio. Para e cheira demoradamente todo xixi e todo matinho que consegue encontrar. Muitas vezes eu quero enforcar Krishna. Lançá-la embaixo do ônibus, causar alvoroço no Abaeté. Mas em seguida me abaixo e começo a acariciá-la loucamente. O pensamento me dói, mas o perdoo. Ergo-a à altura do peito e a contraio. Ela me olha com grandes olhos esbugalhados, então a devolvo aos seus matinhos. Um ar frio entra pelo furo na lateral do meu tênis. Nós fazemos isso todos os dias, somos como que melhores amigos. Mas ela sabe que uma hora eu a matarei. No fundo sei que ela sabe. Mas treinei Krishna no estoicismo. Serena, pachorrenta. Dê ao homem a ferramenta e peça para desparafusar alguns parafusos enferrujados, conhecerás a pessoa que está a seu lado. O estresse e a angustia, a ganância e o alvoroço na busca pela moeda, a escatologia, a Nike, o não ter, a falência de espírito, o coração prestes a explodir, implodir, o ferimento de um para com o outro, o entorpecimento, todas essas coisas crescem a uma velocidade inimaginável. Abraão é o melhor bicho, neste sentido, para dizer isso. Quero dizer, para se observar e seguir o exemplo. É o melhor bicho para aprendermos a como agir. Um gato. Krishna rosna, inofensiva. Já caminhamos 8 quarterões de volta. Então temos um total de 16 quarterões rodados. O ar gélido no pé. Os lábios rodeados de casquinha. O ônibus que passa a nosso lado. Já na hora do almoço, estamos de volta. Abraão nos recebe. Ergo a cabeça do cadeado na grade, Ofélia está sentada na varanda, na cadeira. O cabelo feito juba, alaranjado, a xícara numa das mãos, o baseado na outra, um cigarro queimando no cinzeiro na mesinha azul de centro. Maquiagem borrada, hálito forte de decomposição. Penso rápido, sei que a melhor desculpa é dizer que preciso ir à cidade comprar qualquer inutilidade. Hoje acordei pronto para nunca mais voltar.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s