Contos

O AMIGO QUE QUERIA ROMPER COM A HUMANIDADE —

(a música, o sorvete, o porre federal e o transe que modificou o status de suas pretensões)

14 de Maio de 2014

QUARTA FEIRA, 03:19 DA MANHÃ

o telefone toca.
me levanto, a cerveja numa das mãos.
do outro lado, voz animada, bêbada — um amigo:

“meu velho, por um momento hoje estive decidido a romper com a humanidade”…

ESTEVE DECIDIDO: ROMPERIA COM A HUMANIDADE

“vê só”, continuou, “coloquei algumas roupas naquela mochila do exército que ganhei do meu avô, sabe? umas latas de salsicha, ketchup, algumas bolachas, pacotes de feijão, uísque, temos bastante uísque aqui… encontrei uma panelinha, uma dessas alaranjadas — sabe aquelas panelinhas alaranjadas? — que certamente me seria muito útil e mamãe não usava mais, minha mãezinha, simplesmente não gostava daquela panela, era o alaranjado, não conseguia… enfim, amontoei boa quantidade de suprimentos, dois meses eu diria, não é incrível? estava tudo ali, tudo dentro da mochila”.

PORTANTO: SUPRIMENTOS PARA ROMPER COM
depois de uma curta pausa:

“quer dizer… você sabe que moro no alto, não sabe? moro no alto, daqui de cima vi com estes dois olhos marejados — sim, tudo esteve muito claro hoje — aquela senhora e sua sacola contendo talvez dois mini supermercados dentro, há há há, dois mini super ‘mercadões’ inteiros cara… ééé, pobre senhorinha, toda enrugada e caminhando, caminhando sabe-se lá pra onde — a velha caminhava! um milagre, não é? e ainda tinha as sacolas, dava pra ver o papel higiênico, o papel ameaçando um pulo mortal, o detergente, essas coisas, estava tudo lá.

TUDO DENTRO DAS SACOLAS: DOIS MINI SUPERMERCADOS INTEIROS, CARA

respiração, barulho de isqueiro (cachorro latindo ao fundo), voz:

“aí, é claro, fiquei me perguntando — às vezes fico me perguntando, compreende? —, fiquei me perguntando: ‘ora, ora, ora, por toda a vida essa senhorinha enrugada buscou a eternidade, sempre conflitando com seus mais vigorosos instintos, uma luta desesperada na busca por fazer parte dos indivíduos divinos das alturas, aqui de cima, quer dizer, do céu, mas o que ela faria com a eternidade, pelo amor de Deus? ‘um não parar de caminhar em direção ao mini supermercado’, diria o pensador. ‘uma eterna volta para casa empunhando sacolas’… de qualquer forma, qual é mesmo o nome daquela maldita palavra? não é EUDAIMONIA? esquece”…

outra pausa, cuspe, voz (desta vez com animação renovada):

“você é um bom amigo, não é? você é um homem virtuoso, um bom camarada. o que quero dizer é o seguinte: continuei naquela janela, continuei observando, mas tudo era entristecedor, fúnebre. os carros passavam, novos e usados, todos iguais, as cores eram diferentes, e num desses importados um homem, um desses gramofone-gangster de óculos escuros aliado às forças malignas do governo, enfim, um homem importante, mas logo sumiu, ergueu o vidro e sumiu… mas tinha outro, eu via perfeitamente — você me acha dramático? — , um homem grande e espalhafatoso, ele comia na lanchonete daquele japonês, conhece? ele comia e comia, nessa hora as crianças barrigudinhas e maltrapilhas passavam por ali, tristes, lembrei-me de um pensamento alheio muito razoável, interessantíssimo agora: ‘um homem gordo a comer codornas enquanto crianças imploram pão constituí visão desagradável’… não é verdade?”

COMER CODORNA ENQUANTO CRIANÇAS IMPLORAM PÃO: VISÃO DESAGRADÁVEL

sem qualquer sinal de cansaço, o amigo continuou — enquanto eu abria a terceira cerveja, sempre concordando, sempre muito interessado:

“em seguida — você não desconfia o que vi com estes dois olhos aqui, estes dois marejados olhos? —, em seguida apareceu a motorista divorciada histérica — deduzi, entende? —, uma morena de meia idade, seios lindos… cof cof cof… despreocupada, fumava um cigarrinho com muita vontade e o carro não estava, digamos, lento, sabe? o carro vinha rápido, muito rápido… tinha um cachorro parado, esperando — EU VI! o viralatinha esperou e esperou, na hora exata precipitou-se em direção ao veículo de modo que duas rodas ameaçadoras e fatais passaram com precisão sobre seu dorso. o circo estava armado. a mulher fugiu com suas tragadas trágicas, o homem continuou comendo suas codornas, mas todo o resto da humanidade parou para observar o animal sarnento sem vida, uma tarde bolorenta, oh, tão bolorenta, observavam com certo deleite a morte. eles diziam: ‘oh Deus, como pôde, como pode? ela fugiu, a cadela fugiu! o pobrezinho indefeso! como é horrível, como é doloroso! ele só queria viver, viver!’… meu caro, eu vi! o animal havia claramente cometido suicídio. era Nietzsche…do, entendeu? há, há, há… abandonava o nosso mundo cruel por vontade própria! era tudo, aquilo bastava; não seria necessário provar mais qualquer coisa… mas as pessoas continuaram ali…. passariam a tarde, COMPREENDE? passarinhos a tarde — há, há, há”.


quero poupá-los do resto desta conversa sem cabeça.
eu tinha minha cerveja, meus cigarros.
ele estava completamente embriagado.
A QUESTÃO ERA:
estava feliz e tomou um porre federal.
precisava falar.
(vou narrar o que ele queria me contar, mas confesso que a partir daqui os acontecimentos podem não ser o esperado por você até agora, se é que você esperou alguma coisa)


Nesse mesmo dia esse meu amigo acordou muito contrariado com o mundo. Um tédio terrível havia colaborado para que tomasse a surpreendente decisão de romper com a humanidade. Juntou montes de coisas “necessárias” numa mochila e decidiu que partiria para o Rio de Janeiro e armaria por tempo indeterminado acampamento na Floresta da Tijuca. Em sua cabeça estava tudo perfeitamente resolvido. “Uma aventura realmente prazerosa”, ele dizia. “construirei uma cabana… Já ouviu falar em Thoreau?”, perguntas desconexas e incessantes: “e do submarino Nautilus, do capitão Nemo? não? nunca? oh, eu serei o capitão Nemo, compreende?” Eu não estava inteiramente convencido de que esses personagens existiam de fato, mas ele insistia convicto: “eu serei o capitão Nemo, serei sim, mas não terei oceanos…” escreveria, portanto, uma carta aos familiares e explicaria o rompimento. No entanto, quando estava já na entrada do prédio com a mochila nas costas e o moderno óculos escuro na face, uma violenta vontade de usar o banheiro o dominou. “quando enfim cheguei à rua, que merda, literalmente que merda!, o sol estava cruel, fortíssimo, eu havia esquecido o maldito protetor, e meu estômago não estava bem, sabe?”, informou-me ele. O estômago, antes de dar os primeiros passos em direção ao rompimento com a humanidade (que seria qualquer floresta próxima, caso os 54 reais e alguns centavos que possuía não fosse suficiente para chegar ao Rio, de São Paulo), começou a emitir barulhos realmente estranhos e uma necessidade fisiológica apresentava-se naquele momento tão pouco propício, de modo que a vida, mais uma vez (talvez a última), mostrava-se injusta para com o meu amigo. Voltou correndo, pegou o elevador e logo estava no 417. Correu ao quarto, achou o violão — afastando com os pés a massa de objetos jogados por todo o recinto — (só podia defecar tocando violão, hábito adquirido com o pai) e sentou-se sobre o vaso sanitário. Enquanto os dejetos bombardeavam o oceano do capitão Nemo, os dedos deslizavam maravilhosamente pelo braço do instrumento: “havia uma magnífica melancolia nas notas que saíam de minhas investidas automáticas — consegue sentir? — de modo que, muito encantado com tamanha simplicidade harmônica, criei uma música inteira, uma música inteira!”. Deu a descarga e dirigiu-se imediatamente ao computador. Escreveu uma letra absurdamente linda, jamais imaginada pelo homem, alguma coisa de divino — melhor dizendo, “dionisíaco” — estava naqueles versos, bem à sua frente, brilhando. Sua percepção logo o fez acreditar que algo de grande acontecera ali. Ouviu um barulho, era a irmã que chegava com uma amiga para tirá-lo do transe. Ela trazia sorvete e tinham como objetivo preparar granola caseira para misturar (ele adorava sorvete com granola) e passar a tarde esbanjando-se como mães solteiras desempregadas que eram. Decidiu, estranhamente preguiçoso, esperar um pouco mais para prosseguir com sua empreitada rumo ao rompimento total. Voltou ao computador, pegou o violão e não acreditou quando mais uma vez cantou e tocou aos gritos sua música do caralho. Fez um vídeo. Depois de quase uma semana sem “dar as caras” no Facebook, decidiu postar ali sua obra-prima. Um sucesso! Logo os likes surgiram aos milhares. Quer dizer, “foram poucos, mas significativos, sabe?”. Antes as formigas perambulavam por ali desinteressadas e nunca expressavam o amor que sentiam por ele. Um simples “nossa, nossa, que dia mais bonito”, ostentado no status, renderia milagrosos 18 likes. “18 cabeças, cara, e todos me amavam”. permaneceu um tempo online, logo o convidaram a uma festa, logo o dia deu lugar à noite…


o resto não pode ser descrito, quer dizer, uma ostra não coloca em risco o universo, como diria o ecologista, eu até poderia, mas é preferível não fazê-lo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s