Poemas

eu não sei, poesia é gravidez!

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Poemas

mamífero

não posso com a serenidade d’minha tristeza
festejo minha existência promíscua
passando sabão de coco nas feridas d’hortência

permito acessar de vez
quero-me seu
e passar deslizando junto à humanidade

cheio

oco

serpente

[abutre trompa mamífero]

quero saber da serenidade d’minha incerteza
festejando no fundo do buraco
passeando entre feridas e cocôs d’emergência

mil e vinte e quantos a mais
na desordem do tempo
acocorados em colchões de falhas

ao risco da pronunciação
do monólogo
da imersão em

cheio de impulso

[oco animal trava-língua]

embosco na boca da trompa do abutre

serpente

não sei da serenidade d’meu querer
festejo no auge da coragem o estado de ser

mamífero

Poemas

a dor é anciã
e portanto reconquista do estado etéreo

a vertente subjacente do coração
o corajoso e amedrontado 
órgão amiúde à flor da pele

empatia no pico mais alto,
heterogênea heroína

as drogas e o reboleio alheio
[os olhos perpetuam a mágoa]
perpassam sobretudo a história
fecundam a terra com lágrima

adormecer para morrer
e levantar com frio
grama sugando para baixo da terra

sedento de sol
esquecido do amor – craca e halitose
[inorgânica manifestação de ser]

a dor é anciã e reconcilia
reorganiza o regojizo

memoráveis tempos áureos
pneumática respiração e tremor de terra
o epicentro e a luz da sabedoria –
a barricada inventada às pressas

poemas ao relento
imagéticas árvores livres de anseios

o uso inapropriado do estar com o outro

a dor é anciã
feita para curar xamãs
sortilégio na dança aos deuses
[sabedoria fundição polaridade]

quando na pele pela crueldade marcada
é macerada com a água de um rio fecundo

e no chá do sofrimento é embebido

há o peixe a ser domado
a barra que destroça o crânio
e destruída não serve de vara

não há alento ou comiseração
na dor, na satisfação – em qualquer hemisfério

a vida é corda bamba
vidas a nos desequilibrar

Arlequins endoidecidos reavaliação
premunitório sonhar –
fixo terra esquecimento

o estado em que venceremos
para em seguida tombarmos de vez


(poema “luta-fuga, o tempo em que voltamos a morrer”, degustado de vez e morto para sempre, das incursões em prédios históricos da minha consciência anterior à pré-história, em território norte paranaense e fora de mim mesmo)

Poemas

uma sequência d’esquerda
na cabeça
chotto matte
espadachim japonês
uma disciplina intrincada
milenar
de capa preta
e muita bebida alcoólica
Toire ni itemo ii desu ka?
sangria abundante
o glamour atirado ao lixo
com batom no filtro
amendoim japonÊs
uma sequência de direita
no olho grogue
Kyou wa ii tenki ga desu ne?
hoje o tempo está bom, não é?

poema ご馳走さま
23 acertos e chances para morrer

Poemas

piano y cinta magnética

quantas toneladas de sensibilidade
não tem o elefante,
ao perceber a formiga e não esmagá-la

piano y cinta magnética
sua tromba elevada e sensível

a vida vai acabar em vida
o teatro vai acabar em morte
nenhum estandarte na lua do cenário

quantas toneladas de sensibilidade não tem a formiga,
ao perceber o elefante e não enfrentá-lo

piano y cinta magnética
sua força elevada e sensível

o deus vai acabar em vida
o adeus vai acabar em vinda
nenhum rastro de estandarte na lua

poema de inspirações sonoras eletroacústicas, pensado no êxtase e no soma usado por anscestrais xamânicos 1.000 anos antes de cristo.

Poemas

flor de lis andrógena

acordo entre partículas
favorito das micro-marcas
porção invisível do espectro
entre as pernas
um elementar giro à trois
em desavença d’lenços
e golpes pugilistas acidentais
box nas genitálias
em mãos
saturnália e psicotrópico
vale utópico
em júpiter balaústra
feed de galáxias
e aventais chineses
no firmamento
esguicho de molhos mistos
constrição do membro rijo
Tai chi
repuxo excrementício inesperado
morte clavicular
esquivo infausto de mephistos
da terra extra-dimensional
eis o sacerdote boreal subnutrido
o meio fio entre a terra e o céu
núcleo celeste em todos nós
[unhas que não doem fora da carne]
do aglomerado pastoso do tempo
à flor de lis andrógena

corpúsculo desfeito jaz

“poema-sangria”, re-memória das incursões místicas no vale da utopia (janeiro de 2018)

Poemas

propágulos

o que sabiam eles
ouviam eles
comiam eles 
o que diziam

(quando ainda não éramos)

que foi eros
baco
o egito?

nos camuflamos
de osso e carne prenha
de sangue

in vitro

(agora somos)

e o que sabemos
ouvimos
comemos
que dizemos nós?

propágulos de antepassados
análise in vivo
de deuses astronautas

Poemas

em cena

você sabe da ampulheta
feito o forno ligado
[igual a serpente vermelha] 
movimenta-se
fecha os olhos e
chora encarniçada
e olha
ao lado a platéia
superposta
em poltronas confortáveis
e o cenário
como as dimensões do tempo
levam-na ao útero da mãe terra
luzes
[felinos a espreitam]
o rio morto ao fundo
remete a cabelos negros
e olhos de azeviche
[cavalos em disparada]
com ternura você morre
estalido
o tiro no peito afasta os pássaros
das árvores
e teu olhar é a de uma camponesa
diante do pão recém assado

[acústica]

o corpo engole e devolve
aplausos e lágrimas

encerra

Poemas

portuguesa-tietê II

o que você tem?
o que você quer?
o que você faz?
de ônibus
a pé
ferido do coração
e cãibras
estirado sobre uma toalha no chão
do portuguesa-tietê
um croissant
e três barras de cereais no estômago
negociadas a breves poeminhas
ao lado do hotel central,
na odylio denys
em formato zine
[puta madre #13]
as pessoas não perderam
o poder da comoção
3 idiomas saem do alto
nos alto-falantes
meu embarque é às 15:40,
são paulo
curitiba
não me preocupo mais
é o que posso fazer
é o que sobrou
é o que quero
um homem embriagado
da longínqua belém do pará
lançou-me uma nota de 20
em troca de um fanzine
ao qual me apropriei
por necessidade
[puta madre #12]
as coisas estão melhorando
vou pro meu segundo café

Poemas

portuguesa-tietê I

na cruzeiro do sul com
a odylio denys,
o metrô estremece o meio-fio em que sentamos
e observo os movimentos da morena de cabelos grisalhos
que produz os assados da semana
e agora varre o chão da lanchonete central,
com monotonia
e nenhum movimento a mais do homem coçando a barriga dez minutos inteiros,
o copo de cana descansando sobre a mesa;
os cachorros saem da frente do hotel,
assustam-se com a vassourada leve
e chegam até nós,
babam como que sob o efeito de narcóticos.
fico sabendo que gonçales já viajou três dias e noites no bagageiro de um ônibus,
às escondidas;
estava desiludido.
conheci-o pedindo-lhe seu carregador emprestado,
sentado triste em um banco do terminal;
odeia são paulo,
com razão
e quer voltar a viver em buenos aires.
gonçales tem um filho e já rodou por tudo que é buraco.
comemos bolo num bar da odylio,
atravessando uma massa de moradores da rua;
um cara grandalhão e avermelhado atrás do balcão,
simpático e compreensível;
bebemos café e fumamos.
uma pena ele ter ligado
sua pequena caixa de som
numa dessas rádios insuportáveis
de todos os estados brasileiros:
a noite não tinha nada mais que oferecer, pegamos nossas tralhas e
voltamos ao ladrilho frio e a essa hora limpo do portuguesa tietê.