Poemas

ABERTURA

pequenas conclusões
e nenhuma resposta
definitiva sobre nada;
o cinza do céu d’uma Matinhos sem sol,
o voo das gaivotas universais,
pescadores de batatas grossas e morenas canelas inquebrantáveis,
nenhuma resposta;
barcos pequenos,
distantes e perdidos no horizonte;
pequenas conclusões sobre Lúcia,
a pouca idade,
a regência de vênus,
sua pele rosada,
as bochechas arredondadas e uma face de sorriso radiante, incontestavelmente irradiante,
estando os porquês todos
num único movimento de mandíbula;
deito em suas coxas,
ela fica sempre mais rosada e contemplo
o sangue que escorre por seu rosto,
internamente,
puxo a atenção de todos
com uma observação infantil
e Lúcia, corada,
olha-me com profundidade;
me desculpo verdadeiramente,
tudo é verdadeiro ou pelo menos se tornou real para mim;
profusão de vozes,
uma cartela de ácido no bolso d’minha bermuda praiana,
e nem todos estão felizes;
pequenas conclusões
e absorções,
o oceano cantando calmamente
ao som das guitarras espanholas,
movimentos embriagados,
Dionísio empunhando uma garrafa de vinho parecendo satisfeito,
estrelas brilhando com mais intensidade que outras;
haverá grandes motivos por d’trás da imensidão?
é preocupante o pensar do outro,
devemos nos desesperar e forjar uma atuação medíocre,
dessas que amenizam,
tranquilizantes e mentirosas?
ou guerreamos,
mostramos que é preciso vencer os próprios dilemas,
cruéis & doloridos?
pequenas conclusões e acertos é o grande horizonte,
um momento
e então é só agradecer e
mudar em direção ao vento,
e já que estamos nus
nos atirar ao oceano.

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Crônicas

me pergunto se haveria um momento de conexão que deixamos escapar por considerarmos em demasia as reminiscencias do dia que passou e não aquelas internas, profundas, que nos conduzem de volta a nossa essência. sempre quando me deito e é perto da meia noite os caras com suas motocicletas começam a desaparecer e é um barulho de escapamento distante agora e o bairro fica silencioso. mas o som do latido dos cachorros parece conduzir nossa mente a profundidades que na terrível tagarelice do dia não é possível, e uma espécie de incompreensão invade nossa mente acelerada, parecida com aquela de quando os pássaros cantam de manhã. percebo que acostumei minha mente como um motor de motocicleta, que com um pouco de combustível continua o movimento em direção a lugar nenhum. não que os motociclistas não tenham objetivo, mas quero dizer que uma vez que destinamos a maior parte da nossa energia a pensar em formas de conseguir combustível para que nossa mente não pare de processar o mundo material, destruímos a capacidade de nos envolver com o silêncio e a busca interior das causas profundas. então, quando os latidos aparecem notamos que existe uma animalidade fora de nós e por alguns segundos percebemos que existe uma conexão em tudo isso, sabendo primeiramente que se os motores silenciam, o mundo volta a expressar sua naturalidade e os cachorros são a chave do mundo imaterial. Uivam e latem para os deuses. Saúdam a existência de modo grosseiro, mas objetivo. é como se nos convidassem a ouvir e voltar, aos poucos, para dentro. e sentir a solidão profunda. e sentir a completa falta ou o excesso de resposta que existe em todo o mistério que nos circunda e confunde. essas coisas necessárias acontecem em noites silenciosas em que todos dormem e apenas latidos vindos de todo o bairro e fora do bairro nos surpreendem.

Poemas

até que ponto é dolorido?
até que respondam suas expectativas;
até que correspondam suas investidas;
até que o abraço do pai
não seja meramente virtual?

(a saudade nasceu com o homem
e dele só se separa na morte)

até que ponto sua força
pode segurar a lágrima?
até que o suor do esforço
do outro seja o único líquido;
até que os vícios sejam reminiscências;
até que as reminiscências sejam
de vidas celestes superiores?

(é razoável sofrer quando todos
estão felizes na ignorância)

até que ponto pode o olho
se fechar para a dor alheia?
até que a maldição também
o agarre pelos cabelos;
até que o sangue das tuas veias
seja o único líquido;
até que a vaidade
nos extermine de vez?

Poemas

ESTRATO SOCIAL

ó nobre homem solitário;
ó nobre funcionário do mês;
ó nobre sapo venenoso;
ó nobre mulher d’família burguês;
ó nobre cavalo de corrida,
doce lebre acinzentada;
ó nobre cão amedrontado:
o que fazemos aqui?
ó nobre garimpeiro;
nobre hóspede parasita;
nobre carro americano;
ó nobre apreciador de bebidas;
ó nobre trabalhador pesqueiro,
ó nobre homem desmiolado:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
ó nobre avestruz;
nobre sapo cururu;
ó nobre mulher aveludada;
ó nobre cavaleiro sem rédeas;
ó nobre sapateiro capitalista;
nobre trabalhador da limpeza;
trabalhador da construção civil;
ó nobre advogado,
nobre juiz bonachão,
ó nobre soldador sujo de graxa;
ó nobre delegado inviolável;
nobre policial grande e corrupto;
ó nobre presidente rico de um país falido;
parlamentarista fedido;
ó deputado estadual banguela;
ó nobre saltimbanco,
malabarista de facão,
domador maquiado de leão;
tigre de bengala;
guia turístico;
arquiteto;
sem teto;
ó nobre professor;
homem do jaleco sujo:
você já se tornou humano
ao menos uma vez?
você que almeja títulos,
privilégios,
fortuna e luxúria,
que não volta para dentro,
vive do lado direito
mesmo sem estarmos em guerra;
ó nobre homem de negócios,
ó dividendo;
ó nobre vendedor de cocada,
traficante de cocaína;
ó nobre príncipe;
nobre conselheiro;
capitão de navio;
ó nobre guru,
conhecedor das
coisas excelsas;
ó nobre portador de cabeças de gado;
ó nobre trabalhador assalariado;
ó nobre homem de negócios;
ó nobre homem sem negócio;
ó nobre filho da mãe,
do pai,
do espírito santo;
ó guru,
falso organizador de toda a energia
do universo;
ó místico,
conhecedor de todos os sete planos;
ó continuação de Krishna,
extensão de Shiva,
expressão de Brahma;
ó buscador nervoso do nirvana;
ó filósofo, Confúcio, Plotino,
ó Platão,
o que vocês têm a dizer
da nossa atual condição?
ó nobre discípulo;
nobre enfermeiro;
nobre aviador;
ó nobre conhecedor
das causas profundas
do homem;
ó nobre mecânico de automóveis;
nobre borracheiro;
atendente de lanchonete;
ó você que tem problema em casa,
não tem dinheiro o mês inteiro;
você que brigou com a mulher
brigou com a mãe,
com o pai,
com as irmãs,
que está no inferno;
ó você que caminha todos
os dias em direção
a uma condição melhor
de vida;
comece olhando para o alto,
percebendo a magnificência
dos príncipes celestes;
ó nobre homem vivo neste plano,
você já se tornou humano
ao menos uma vez? 

Ensaios

a grande questão agora é colocar o Rabo de Galo na lista da “International Bartenders Association” e mostrar ao mundo por que os borrachos brasileiros são cozidos e não, digamos, assados. em são paulo, na névoa da gourmetização geral, nosso “cocktail” é cada vez mais importante e os empresários sacaram que com um bitter descente se consegue cobrar até 30 paus numa dose. okay, mas precisamos que nosso galo passe pelo crivo de 60 países; e enquanto isso não acontece, não esqueça do gelo em sua bebida, isso diminui a percepção de amargor e seu rabo de galo fica menos agressivo, apesar que é possível não acontecer o mesmo com você.

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